A franquia Dragon Ball vêm sofrendo uma certa crise. Depois de quase uma década dormente, a saga retornou em 2013 com o maravilhoso longa Batalha dos Deuses. Desde então a franquia cresceu e se expandiu, com mais filmes, uma nova série de TV e mangá Dragon Ball Super e diversos produtos multimédia. Mas um problema que as produções dessa nova era tem dificuldade de lidar é a autenticidade. Gostando ou não, Dragon Ball é um produto comercial, mas mesmo assim é inegável que o mangá original de Akira Toriyama passa uma sensação difícil de ser replicada. Então, desde que a franquia Dragon Ball voltou a ser uma presença constante na cultura pop, a Toei teve dificuldades em decidir o que caracteriza uma obra de Dragon Ball no século XXI. E com Dragon Ball Super: Broly, vemos um filme com muita confiança sobre o rumo que quer levar a franquia. Se esse caminho é o certo ou não, vai depender do que você quer de uma produção de Dragon Ballcontemporânea.

A trama do filme tem seu inicio anos no passado da saga, detalhando o passado dos Saiyajins e sua relação com o Imperador Freeza, assim como os eventos que levaram o bebê Broly a ser exilado para um planeta remoto, devido ao seu imenso potencial de batalha, junto com seu pai Paragus. Em seguida, temos uma adaptação 100% fiel à história “Dragon Ball –“, que conta como Bardock, pai de Kakarotto, descobriu sobre a iminente destruição do Planeta Vegeta e salvou o seu filho desse destino.

A narrativa então vai até o presente onde acompanhamos a dupla de soldados do exército Freeza: Cheelai eLemo, que por acaso se encontram no planeta onde residem Broly, que agora um adulto criado na natureza selvagem, e Paragus, sedento para se vingar contra o Rei Vegeta que o traíra no passado. Aliando-se com Freeza, eles vão para a Terra confrontar os inimigos Goku e Vegeta.

É nessa parte que o filme mostra à que veio. Os últimos 40 minutos do longa metragem são dedicados inteiramente a uma imensa sequência estendida de batalha envolvendo Goku, Vegeta, Broly e Freeza, com todos eles passando por uma série de transformações e transitando em diversas locações. Nessa luta vemos toda a habilidade do diretor de animação Naohiro Shintani, cujos redesigns dos personagens abrem mão de detalhes mas proporciona ao departamento de animação maior liberdade para experimentação com movimento, cores e enquadramento, agora os personagens se distorcem, expandem e deformam conforme a luta fica cada vez mais frenética, e dá pra notar como cada animador deixa sua marca em cada seção. Animadores como Naotoshi ShidaTakeo IdeFutoshi Higashide usam seus estilos próprios para elevar cada plano em que contribuem. Até as sequências em CG funcionam! Esse filme estabelece o padrão de qualidade a partir de qual toda produção futura de Dragon Ball vai ser comparada.

É notável a quantidade de capricho nesse filme para se criar a maior experiência para os fãs. Desde a inclusão dos personagens adorados pelos fãs como BardockGogeta e o próprio personagem que dá o nome ao filme, a equipe deixa claro que sabe o que o seu público quer. Infelizmente, para aquele pequeno grupo de fãs que preza pela história e desenvolvimento de personagens do original, a narrativa desse filme tende a decepcionar. Além do longa dedicar um bom tempo à pior história já criada por Toriyama, a história simplesmente não engrena como deveria. O roteiro, assinado pelo próprio Toriyama, consegue tornar o Broly, que antes nada mais era do que um vilão descartável de filmes não canônicos, em um personagem com uma história e personalidade interessantes e com potencial. Porém, além dele, são poucos os personagens que se destacam nesse filme. O núcleo do Freeza é sempre divertido de acompanhar, mesmo que não sirva para muita coisa além do alívio cômico. Nem mesmo as cenas mais dramáticas acerca dos Saiyajins tem o peso que deveriam. Tudo nesse filme acontece por que o roteiro manda, mesmo que ocorra da forma mais forçada. As motivações dos personagens são fracas e no fim tudo vira uma desculpa para as lutas acontecerem, e a partir dai, a narrativa efetivamente acaba. O personagem que mais sofre é o próprio Goku,que não só é uma caricatura de si próprio que não contribui nada para a história, mas a história do filme desfaz grande parte do desenvolvimento que o personagem viveu no mangá/anime original.

Outro destaque vai para a trilha sonora, composta pelo já veterano da franquia Norihito Sumitomo que demonstra um grande amadurecimento desde o final da série Super, com musicas tensas e emocionantes nas batalhas, como também contemplativas e soturnas como no caso do Planeta Vegeta.

O Dragon Ball Super Broly tem ambição de ser tudo que os fãs querem de um filme de Dragon Ball. E se você vem esperando lutas incrivelmente animadas, o retorno dos dubladores brasileiros clássicos e a redenção de um personagem que a muito tempo se tornara uma piada (Não, infelizmente não é dessa vez que o Yamcha volta a brilhar) então esse filme é recomendadíssimo. Porém, se você é um fã das antigas, que já leu o mangá e sabe que o Dragon Ball é mais do que só porradaria, infelizmente vai se decepcionar um pouco, não só por esse filme, mas pelo fato de que a franquia inteira parece não se importar mais com a própria narrativa.

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