Qualquer um pode ser o Homem-Aranha. Desde a criação do personagem, em 1962, Stan Lee e Steve Ditko sabiam o poder da máscara do Aranha. Embaixo da máscara pode ser qualquer um – e não só por causa do anonimato. O Homem-Aranha é um herói que tem uma vida normal, problemas normais, sonhos normais, perdas normais. Claro, ele foi picado por uma aranha radioativa, ganhou poderes e sai por aí pulando de arranha-céu em arranha-céu salvando a cidade de Nova York e o mundo mas, ainda assim, ele é um cara normal. Um cara que quer viver seus dias, tranquilamente, na vizinhança.

Qualquer um pode ser o Homem-Aranha. E Brian Michael Bendis também sabia disso. Tanto que seu run em Ultimate Spider-Man é um dos mais significativos não só do personagem, mas da história da Marvel. Bendis aproveitou a nova oportunidade da fase Ultimate para atualizar a jornada do Aranha, trazê-lo ainda mais perto dos jovens leitores. E foi além. Ao ver o racismo diário enfrentado por sua filhas adotivas, Bendis começou a pensar como poderia colaborar com a representatividade nos quadrinhos. Notou que o status quo, por mais que tivesse possibilitado a estruturação de arquétipos, acabou por cristalizar as histórias e alcance destes personagens. E o Homem-Aranha dava possibilidades incríveis nas mãos de um time de escritores e desenhistas. Nascia, em colaboração com a desenhista Sarah Pichelli,Miles Morales.

Miles é negro e latino. E é o Homem-Aranha. Mas não é isso que define Miles. Ele não é só uma versão “Homem-Aranha Negro” ou “Homem-Aranha Latino”, uma versão que precisa vir acompanhada de uma definição que colocasse uma barreira, quase como se intuísse que ele não é O Homem-Aranha. Miles é o Homem-Aranha, tão Homem-Aranha quanto as outras versões do personagem. E também é um garoto normal, assim como Peter Parker, eu, você e todos os leitores. Qualquer um pode ser Miles Morales.

Sony, que adquiriu os direitos do personagem durante a quase falência da Marvel na década de 90, buscou nos últimos anos produzir algo significante com o Aranha. Por mais que 2 de 3 filmes da primeira trilogia tenham sido um sucesso de público e crítica, a segunda tentativa de criar uma franquia foi terrivelmente falha. Preferiu se arriscar nos vilões do Teioso por ver um potencial de contar histórias nunca antes contadas, cedendo o Aranha para o MCU e deixando a Marvel pensar em uma nova forma de trabalhar com o personagem. Mas Peter Parker não é o único Aranha… E esse detalhe óbvio passou batido pela Sony. Até agora. Os diretores Peter Ramsey (A Origem dos Guardiões) e os estreantes Rodney Rothman e Bob Persichetti, junto com o roteirista Phil Lord (Uma Aventura Lego), viram no universo do Homem-Aranha a chance de contar uma história realmente única. E é isso que Homem-Aranha no Aranhaverso é: uma história única e repleta de frescor. Frescor para o gênero de super-herói, por contar uma história de origem madura e que foge da estrutura mais básica e fácil, com uma adaptação primorosa aos quadrinhos. Frescor para os longas animados, que acabaram por optar pelo mesmo caminho de sucesso trilhado pela Disney/Pixar e que fez com que as animações 3D circundasse pelos mesmos tons.

Em Aranhaverso, acompanhamos o jovem Miles Morales (Shameik Moore) que, após ser picado por uma aranha e testemunhar um acontecimento histórico, descobre que possui os poderes do Homem-Aranha. Em sua jornada de aceitação encontra Peter B. Parker (Jake Johnson), um Homem-Aranha de outra dimensão. Juntos, precisam destruir o acelerador de partículas que causou a anomalia quântica que abriu o espaço-tempo antes que Nova York acabe sendo destruída. Aranhaverso adapta muito bem elementos da fase de Bendis em Ultimate Spider-Man tanto com Peter Parker como com Miles Morales, o primeiro run do personagem. Portanto, para aqueles que conhecem o personagem não será surpresa ver a ordem dos acontecimentos, mas gratificante assistir como esta nova versão é construída e reinventada junto ao conceito do multiverso. Para aqueles que não conhecem o personagem, a alegria de ver algo novo, imprevisível, e a história de origem de um novo Homem-Aranha – afinal, todos já conhecemos a história de Peter Parker, e não precisamos ver tão cedo a morte de outro Tio Ben. Assim como Bendis concebeu, em Aranhaverso o “Tio Ben” de Miles é outro. O catalisador que joga os grandes poderes e grandes responsabilidades nos ombros do garoto possuem uma dimensão dolorosa e gigantesca, um ocaso. E Miles é um garoto inseguro, cheio de dúvidas, como qualquer adolescente em fase de amadurecimento. Esta insegurança é também uma maneira que Bendis e Pichelli encontraram de intuir em Morales o medo de um jovem negro, latino ou de outras minorias de se provar na sociedade americana, sempre precisando mostrar seu valor. Esta tocante jornada de aceitação e sua sucessão como Homem-Aranha é um dos aspectos que tornam Miles Morales um dos personagens mais importantes da história dos quadrinhos – e tudo isto é transportado de forma sensível e respeitosa para Aranhaverso.

Não só o run de Bendis é contemplado no roteiro e história de Aranhaverso. O longa aproveita toda a história do Cabeça de Teia para fazer uma ode ao personagem, a suas várias vidas nas diversas mídias e ao seu impacto na cultura pop. Em Aranhaverso encontramos homenagens e referências aos artistas que passaram pelo personagem, como John Romitta Sr. e Jr. e os já citados Bendis, Pichelli e Ditko, aos filmes de Sam Raimi, aos desenhos animados do personagem, a Donald Glover, aos produtos de merchandising… Tudo está presente aqui. E o melhor: nada gratuito. Tudo está ali para tornar o que foi criado ainda mais interessante, gigante. Não se trata apenas de fan service, mas de algo incorporado no desenvolvimento narrativo que torna o filme mais rápido e inteligente, agradando aos que já conhecem o personagem e deixando aqueles que não o conhecem ainda mais interessados – interessados, principalmente, em retornar a obra, para captar tudo que Aranhaverso traz. Estas homenagens também ganham o campo estético e estilístico da animação. Aranhaverso constrói um visual genuíno da fusão entre cinemas e quadrinhos, de forma que nenhuma produção conseguiu. De um momento específico em diante, os balões de pensamento e narrativos típico dos quadrinhos invade o longa, trazendo também onomatopeias, efeitos de movimento, ação e até mesmo do famoso “sentido-aranha”. Os traços se assumem como cartunescos, e a movimentação ganha um staccato que lembra a mudança visual de quadro para quadro ou a troca de páginas de um gibi. É possível até identificar códigos e signos dos quadrinhos americanos, como as Kirby Krackles ( Pontos de Kirby), convenção criada pelo artista Jack Kirby para retratar raios cósmicos e diferentes tipos de explosões e energias em seus desenhos.

O visual do Aranhaverso, além de unir muito bem a linguagem do cinema com a linguagem dos quadrinhos, tem um primor técnico maravilhoso. A animação a todo momento comunica-se com o espectador. O conceito do multiverso, por exemplo, já é mostrado ao espectador antes mesmo do filme começar. Mostrado, não narrado ou explicado em diálogos expositivos, como normalmente é visto. O filme se estrutura de forma clara para o espectador, e sempre apresenta novos conceitos visuais sem deixar o público perdido e em uma gama muito assertiva. Diferentes linguagens são reunidas, trazidas pela adição de cada um dos Aranhas das outras dimensões. Enquanto o Homem-Aranha Noir (Nicolas Cage) brinca com o preto e branco e com as estruturas do estilo, Peni Parker (Kimiko Glenn) e sp//dr trazem o estilo dos animes e Spider-Ham (John Mulaney) o dos cartoons. Todos trazem mais informações e códigos para o Aranhaverso, que conseguem ser lidos tranquilamente pelo espectador. O equilíbrio é muito bem realizado em Aranhaverso, que consegue tornar tudo uniforme com o conceito principal, sem nunca perder a coerência, mas encontrando os momentos certos para potencializar cada um dos estilos e gerar as mais agradáveis surpresas – sejam visuais ou na lógica construída. E as cores? Sempre vibrantes, fortes, assumidas das inspirações dos quadrinhos. A fotografia sempre se reinventa, indo das cenas mais coloridas até as mais escuras sempre trazendo a inserção de cores brilhantes e néon. A progressão do filme nos leva a um terceiro ato incrivelmente belo e sinestésico, quase lisérgico.

As cenas de ação e que exploram o movimento são um espetáculo. A qualidade da animação permite ao espectador ver cada detalhe, como a comida sendo mastigada ou o movimento dos músculos de cada personagem durante um salto, um chute, um soco. O mérito de cenas tão empolgantes também é do design de som do longa, portanto assistir em IMAX e em salas especiais se faz uma experiência necessária. Um destaque especial para a trilha sonora do filme, que traz alguns dos principais nomes do hip-hop e trap atual. São faixas poderosas, com batidas e musicalidade viciantes e letras poderosas. Com tantas músicas boas, nem todas podem ter tanto destaque assim. Muitas das faixas acabam servindo em insercões ou acompanham a transição de cenas. Familia é uma delas – o que acaba sendo uma pena. Sendo a única música que assume a latinidade de Miles Morales, talvez tido sido interessante dar mais destaque a ela. Claro que a letra, uma promessa de vingança, possa ter dificultado seu uso. Já outras conseguem ter seu merecido holofote. A simpática Sunflower abre o longa e vira uma ode espirituosa para a alma de Miles. What’s Up Danger é alucinante, feita pra impulsionar nossa catarse. Mas a grande música do filme é Scared of the Dark, escrita pelo falecido XXXTentacion. A música traduz um dos momentos mais importantes e significativos do filme – e uma ou duas surpresas nos fazem sentir, na pele e nos ouvidos, o quanto Aranhaverso é bem construído.

O elenco de dublagem, no original e na versão brasileira, está muito bem ajustado. E a construção realizada acaba por deixar alguns personagens ainda mais interessantes. Nicolas Cage fez de 2018 seu ano da virada. Ótimas atuações e a realização de sonhos: interpretou o Superman E o Homem-Aranha. Máximo respeito a este que é um grande ator, que se entrega como poucos a seus projetos. Mulaney traduz muito bem a insanidade do Porco-Aranha – que com certeza será bem mais explorado de agora em diante. Outra que com certeza voltará é Hailee Steinfeld, que conquistou seu lugar como Spider-Gwen. Não seria difícil imaginar que acontecerá uma pressão popular para que a atriz encarne a personagem também em um live-action. Shameik Moore nos entrega um Miles Morales na medida, direto das páginas de Ultimate Spider-Man. É um Miles Morales brilhante, forte. O personagem é bastante explorado pelo roteiro, possibilitando diversas variações e mudanças em suas emoções, trazidas com sensibilidade, profundidade e alma por Moore. Já Jake Johnson está muito á vontade como Peter B. Parker, e explora muito bem as outras facetas do personagem – nunca vistas antes nas telas. O ator consegue construir um Peter carismático, como o habitual, mesmo mostrando este lado ingrato e nada heróico. É doloroso ver esta linha do personagem. É doloroso ver um Homem-Aranha sem esperanças, vencido pelo cansaço, mas que ainda preserva uma alma heróica e cheia de vivacidade. De forma geral, o longa é isto. Uma comunhão da vida de um herói. De vários heróis. Que são um. É uma animação que não tem medo de aprofundar-se no drama de seus personagens, de trabalhar seus humores, de fazê-los descobrir e redescobrir o peso de serem heróis, pilares morais e que flutuam entre o divino e o humano. Aranhaverso é, antes de tudo, uma lição para as atuais Marvel e DC nos cinemas. E um lembrete de que a Sony ainda quer dizer algo com este personagem – e que sabe como! Homem-Aranha no Aranhaverso é como uma nota, grudada em uma teia, dizendo para todos: o Amigão da Vizinhança tá de volta!

Enfim…

Homem-Aranha no Aranhaverso é uma das maiores adaptações de quadrinhos feitas até hoje. Respeito ao adaptar personagens, seus significados e histórias de criação? Confere. Estudo para adaptar a linguagem dos quadrinhos e fundí-la com o audiovisual de forma que poucos filmes fizeram e pouquíssimos conseguiram? Confere. Um roteiro inteligente e maduro, que não tem medo de desenvolver seus personagens e levar o público ao envolvimento emocional de seus dramas e significados? Sim! Qualidade técnica em animação e design de som? Muita!

Homem-Aranha no Aranhaverso é revigorante! Para os gêneros de super-herói e animação, o longa mostra que existem caminhos muito mais interessantes que, por medo e/ou preguiça e/ou comodismo, os estúdios evitam. Para os fãs de quadrinhos, um prazeroso vislumbre da transposição da energia e genialidade de tantos artistas que passaram pela nona arte. E para os fãs do Aranha? Muito mais! Aranhaverso segue os mesmos passos de Ultimate Spider-Man, inclusive da necessidade e propósito das escolhas de Bendis. Qualquer um pode ser o Homem-Aranha. Qualquer um pode se pendurar em teias, saltar em queda livre e salvar aqueles que amam. Se você se esqueceu disso, você vai relembrar. E se você não sabe disso… Bom, Miles Morales tem algumas coisas pra te mostrar.

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