Crítica

CRÍTICA | The Fix – Só o humor pode salvar o mundo moderno

O humor é uma ferramenta de questionamento e mudança do humano. Isto é, quando possui propósito e entendimento. O humorista e/ou comediante que vê no humor formas de criar linguagens que possibilitem o pensamento crítico de nossa sociedade (pensamento esse não necessariamente racional, muitas vezes inconsciente) nos ajuda a repensar o mundo contemporâneo.

De trapalhadas em fábricas ao discurso potente e pacifista do sósia de um ditador, criando jogos infantis nos campos de concentração da Segunda Guerra ou atravessando o fronte no Iraque para salvar sua amada. De Chaplin a Benigni, e passando por diversos cômicos da história que de forma sensível e genial mostraram a importância social do humor, da graça e da comédia, chegamos aos tempos modernos. Tempos esses que carecem de cômicos e cômicas, onde a comédia foi rebaixado a um gênero sem nobreza e onde grandes comediantes e humoristas são obrigados a migrarem para o drama para serem levados a sério pela indústria da tv e do cinema. Porém, o stand-up ainda funciona como palco para importantes reflexões. Não me refiro ao stand-up brasileiro, que ainda sofre com o boom que teve nos últimos 10 anos – que fez com que pessoas que não sabem a importância social da profissão ingressassem no gênero – mas me refiro ao stand-up americano, que hoje é dominado por discussões inteligentes e politicamente interessantes. 

Netflix se tornou uma importante plataforma para a divulgação dos comediantes stand-up americanos, podendo rivalizar até mesmo com a HBO, a casa dos especiais de comédia. E em um 2018 muito bom para o formato na plataforma a Netflix traz The Fix, um programa onde times de comediante se revezam para encontrar soluções para os principais problemas mundiais. Com apresentação de Jimmy Carr, o programa segue a estrutura dos british panel shows, com comédia rápida e onde os comediantes são postos no foco. Uma estrutura difícil e que exige muito do roteiro e do improviso, que acaba colocando os participantes em estado de jogo todo o tempo. Isso impede qualquer tipo de subterfúgio e obriga The Fix a ser essencial. Ou se é engraçado ou não é. Felizmente, a cumplicidade e inteligência dos cômicos entrega um resultado gratificante. Quando The Fix é engraçado, é realmente engraçado – de fazer rir alto. As piadas nascem de pensamentos rápidos, se emendam uma na outra e pegam o espectador de guarda baixa. A experiência dos participantes também é de grande ajuda. Como são comediantes que ainda atuam no palco e em casas de comédia, estão com o timming e com o raciocínio afinadíssimos, e conseguem ir além de lógicas e estruturas de set-up e punchline já batidas. O fator surpresa é algo presente na construção de uma piada, e The Fix consegue ser surpreendente na medida certa para fazer rir.

Jimmy Carr é o comediante certo para a condução do show. Em The Fix vemos uma versão mais amena do comediante, que entende o novo ambiente onde está e até onde consegue ir com suas piadas. Ainda é possível ver sua característica acidez e seu humor negro, e nada se perde. Carr é inteligente, e compreende uma das regras de ouro: nem toda piada é para toda hora, nem toda piada é para todo lugar. Há aqueles que vão acusá-lo de se vender ao politicamente correto, de perder seu estilo para ter um programa na Netflix. Uma idiotice, claro. Já citei sobre o termo “politicamente correto” na crítica de Paradise Police, e acredito que o termo se tornou um argumento vazio e automatizado – além de covarde e preguiçoso. Carr é o mesmo, e continua defendendo os mesmos ideais que sempre defendeu. Não é uma questão de alinhamento político, ideologias etc. É questão de interpretação, de captar nas entrelinhas quando o comediante está fazendo críticas explícitas, ou parodiando e ridicularizando situações. E se tem algo que Carr continua fazendo é testar a audiência, arrancando risos nervosos e caras de surpresa. A quem se interessar pelo trabalho de Jimmy Carr, na própria Netflix é possível encontrar o show solo do comediante Funny Business.

Carr também conta com a ajuda de D.L. Hughley e Katherine Ryan que, além de participarem da escrita das partes roteirizadas do show, também lideram as equipes de cada episódio. Nomes como Nikki GlaserAl MadrigalWhitney Cummings e Sasheer Zamata discutem temas pertinentes para a sociedade americana e que, consequente, refletem o próprio mundo moderno. Como a premissa já apresenta suas pautas como problemas contemporâneos, não há um contraponto ou uma reflexão de defesa sobre cada um dos temas. Claro que problemas como desigualdade social e aquecimento global são indiscutivelmente negativos… Porém, nos EUA atual e em países onde uma grande polarização política se faz presente (no Brasil, por exemplo) o debate se faz necessário. Não só avaliando pelo prisma democrático, mas para os números do próprio show. Aqueles que são contrários as opiniões unilaterais apresentadas podem deixar de assistir o programa justamente para não terem suas ideologias feridas, ao passo que buscar uma real reflexão pode ajudar com que a audiência reavalie sua opinião – seja para concordar ou discordar de The Fix. O show é obrigado a ser imparcial? Não. Mas em tempos onde se faz necessário defender o óbvio, é sempre bom explicitar o convite à reflexão.

O programa também conta com a pesquisadora Mona Chalabi, que traz dados e estatísticas para informar e reforçar a mensagem discutida em cada episódio. São participações muito interessantes, mas que poderiam ser um pouco mais profundas. Ser um programa com foco na comédia não exclui a possibilidade de trazer pesquisas mais completas – vide o também humorístico (e excelente) Patriot Act e os talk shows da própria Netflix. Algo que também poderia ser trazido destes outros shows é o cuidado estético do cenário e motion graphics. Apesar de sua premissa simples que busca focar no essencial – no caso, os humoristas – ter um apreço maior com a identidade visual do show seria ainda mais atraente para definir o clique dos assinantes da plataforma. É algo que visivelmente já começou a ser realizado ao longo da primeira temporada, que em certo ponto começa a investir mais em pequenos vídeos-esquete e gráficos visualmente mais elaborados.

Um dos maiores méritos de The Fix é ser instigante e relevante sem nunca deixar de lado a crítica e a comédia. O programa é leve, divertido, ideal para assistir descompromissadamente entre uma série e outra. Mas não estranhe se notar que está maratonando o show – The Fix é realmente viciante.

Enfim…

The Fix é mais um destaque em shows de comédia da Netflix em um ano que foi repleto de acertos no segmento. Um condução carismática e generosa de Jimmy Carr, que sabe muito bem como convidar a platéia e os convidados a entrarem no jogo. The Fix é leve e divertida, e pode se provar um passatempo muito viciante. Sua simplicidade, porém, pode não prender boa parte da audiência. A falta de um contraponto acerca dos temas tratados também pode levar ao descontentamento, e muitos podem compreender o show como “imparcial”. Mas é importante salientar que The Fix não tem essa preocupação em seu projeto – e não há nenhuma obrigação ou incoerência nisso.

The Fix não vai solucionar os problemas da sociedade. Os próprios comediantes sabem disso e fazem graça com o fato. Porém, o riso é uma arma crítica de conscientização. Sempre foi e sempre será. Rir é refletir, marcar no próprio corpo um pensamento. Por isso devemos saber bem do que rimos. A comédia e o humor não podem salvar o mundo, na prática. Mas podem salvar você. E essa ainda é a grande piada a ser entendida.

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