O que impulsiona, artisticamente falando, uma adaptação cinematográfica? São vários os motivos, mas todos tem em comum a real necessidade de comunicar. Uma adaptação se justifica quando possui algo concreto para transmitir, seja ao atualizar uma obra, ao apresentá-la a uma nova geração ou simplesmente ao contar uma mesma história de forma diferente – com novos temas, novas discussões e novas experimentações dentro de um universo ficcional já apresentado.

Claro que nem sempre uma adaptação é motivada primordialmente por um pensamento artístico. Há muito interesse mercadológico, especialmente na produção hollywoodiana. E este não é um mérito da Hollywood contemporânea, como se costuma condenar. Desde os primórdios do cinema as adaptações e remakes são vistos com interesse por estúdios e produtores. Afinal, uma história que já foi bem aceita no cinema e/ou em outra mídia pode ser uma aposta financeira mais confiável do que um roteiro original. 

E, no auge das franquias, séries e universos cinematográficos, a Disney imaginou que seria interessante realizar versões live-action de seus desenhos clássicos. Este projeto, que tem como motivação principal a arrecadação, levou um certo tempo para ajustar-se e demonstrou certa irregularidade, trazendo filmes mais interessantes e que tinham mais a discutir do que outros. Mas, de forma geral, as adaptações live-action da Disney tem mostrado progresso a cada lançamento, principalmente no equilíbrio entre o tom e ludicidade das animações com a verossimilhança dos filmes. Aladdin chega aos cinemas com a missão de perpetuar essa evolução e preparar o terreno para os projetos futuros do estúdio – entre eles, o aguardadíssimo Rei Leão. Dirigido por Guy Ritchie (Sherlock Holmes, Snatch), que também assume o roteiro junto de John August (Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, A Fantástica Fábrica de Chocolate), Alladin traz sua história original praticamente na íntegra. O ladrão de bom coração Alladin (Mena Massoud) encontra uma lâmpada mágica habitada pelo Gênio (Will Smith). Com direito a três desejos, o jovem usará a magia para mudar de vida e conquistar a jovem por quem se apaixonou – Jasmine (Naomi Scott), princesa de Agrabah. Alladin é um live-action que, embora preso a sua obra original e sem personalidade própria, consegue realizar importantes atualizações em sua história e se prova como um filme divertido.

A direção de Guy Ritchie concentra alguns dos principais acertos e erros do filme. Ritchie é um diretor que gosta de arquitetar momentos grandiosos. Estes momentos trazem peso, por exemplo, para algumas das sequências musicais, que são preenchidas com ação e ritmo. O resultado final é divertido gostoso de assistir. Por outro lado, a falta de sutileza acaba tirando o foco das letras e da musicalidade, que acabam perdendo a força. As músicas também ficam descoladas da cena, não se adequando ao que é mostrado em tela. Este é um problema causado também pela montagem, que não traz fluidez aos cortes e deixa os tempos da música e dos movimentos desconexos.

Ritchie também usa certos elementos e soluções que não fazem muito sentido dentro da narrativa e que acabam funcionando mais ao serem analisados única e exclusivamente de forma estética. Momentos de câmera lenta e de câmera rápida (quando a cena é acelerada e cria o efeito de que os personagens estão se movendo bem rápido, de forma antinatural) servem mais para gerar impacto e criar uma suspensão para o espectador, e não possuem organicidade dentro da condução do longa. É o diretor forçando a obra a introduzir seus maneirismos em vez de deixar ser conduzido por ela e descobrir novas soluções.

Esta necessidade de criar sequências grandiosas, porém, acaba valorizando alguns elementos de Alladin. Apesar da condução para os números musicais não ser interessante e não utilizar bem os clichês, a direção de Guy Ritchie as trata com muita confiança. Ao assumi-las, um aspecto brega e ingênuo é deliciosamente ressaltado. Além de remeter a leveza e pureza da animação, estas sequências, quando em conjunto com a direção de arte, trazem uma bem-vinda homenagem as produções árabes e indianas. É como se Bollywood e a Broadway se encontrassem em tela – e caberá ao espectador decidir se gosta disso ou não. Alladin acerta ao buscar a essência das músicas da animação de 92, mas se sai melhor quando busca de desprender delas. Uma grata surpresa é Speechless que, apesar de sua concepção de cena ser muito simplória, possui forte letra e interpretação de Naomi Scott – e a escolha acertada de Ritchie de deixar a atriz sempre no meio da cena fortalece a mensagem da música.

O roteiro, apesar de engessado, consegue identificar de maneira muito inteligente onde realizar necessárias atualizações. Elas são visíveis, em especial, nas jornadas de Jasmine e do Gênio. Há também um importante e admirável cuidado na representação da cultura árabe e indiana. Agrabah e os personagens de Alladin nasceram de um caldeirão de inspirações de países árabes, Índia e China, e tanto o design de produção como a escolha de escalar um elenco representativo (fugindo do whitewashing) colaboram não só para a construção de um universo ficcional imersivo e crível, como também para uma Hollywood mais justa e acessível – tanto para os profissionais do audiovisual, como para o público. As letras das músicas também passaram por alterações, que retiram parte da visão negativa que o ocidente e a política estadunidense criou sobre o Oriente Médio. Estas atualizações são o que tornam Alladin uma adaptação que justifica sua existência artística, e não deixam que a obra seja só mais um filme genérico da série de live-actions Disney.

Mena Massoud não consegue sustentar o lugar de protagonista no filme com sua atuação. Porém, possui certo charme e carisma, e constrói bem todas as relações de Alladin no longa – apesar deste ser mais um mérito de seus companheiros de cena e da direção de Ritchie. Suas interações com Jafar (Marwan Kenzari), infelizmente, não constroem conflitos interessantes nem estabelecem uma relação de antagonismo convincente. O vilão é um dos pontos fracos do filme, que não consegue ser nem uma atualização do personagem nem uma transposição de sua interessantíssima versão da animação. Há uma tentativa de dar um background maior ao personagem, mas que é superficial demais e que não tem outro objetivo além de estabelecer um foreshadowing.

A adesão da personagem Daila (Nassim Pedrad) é um ganho para o longa. Além de enriquecer a narrativa, sua presença ajuda a dar tempo de tela e objetivos para Jasmine e para o Gênio, que não precisam mais girar ao derredor de Alladim. Pedrad, uma veterana do Saturday Night Live, possui um excelente timming cômico que o roteiro sabiamente utiliza em pequenos quiprocós. Naomi Scott aproveita todas as nuances de Jasmine com muita energia e peso. A personagem acaba se tornando a protagonista espiritual do filme. Will Smith realiza um grande trabalho como o Gênio. Com muita personalidade, o ator aproveita da construção de Robbin Williams sem deixar de aproveitar espaços para inserir sua própria leitura do personagem. O característico humor de Smith aparece em Aladdin – e Hitch – Conselheiro Amoroso, é uma referência assumida. Will Smith também encontra oportunidades para explorar a dramaticidade dos dilemas do Gênio que valorizam ainda mais o já carismático personagem.⠀⠀

Enfim…⠀⠀

Alladin traz toda a essência e energia da clássica animação de 92. Sendo mais um dos live-actions Disney, o longa mostra a evolução dos projetos, aprendendo com seus antecessores e abrindo possibilidades para os futuros longas. Com um belíssimo design de produção e com atualizações bem pontuais e pertinentes, Alladin é um filme que se justifica como adaptação – porém, que não possui identidade própria e autonomia para comunicá-las

Alladin pende mais ao acerto do que ao erro, mas é necessário que os próximos live-actions Disney encontrem seus objetivos, suas necessidades. Alladin encontrou discursos pertinentes nas noites da Arábia (e nos dias também) que não fazem do filme apenas um produto mercadológico, mas será que os próximos live-actions Disney terão a mesma sorte? Que os próximos live-actions Disney – e suas eventuais continuações – não se tornem apenas desejos vazios.

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