Review Séries

5ª temporada de Black Mirror: escrita por Charlie Brooker ou JK Rowling?

Em dezembro de 2018, a Netflix inovou mais uma vez ao lançar seu primeiro longa-metragem interativo: “Black Mirror: Bandersnatch”. Com uma trama simples, mas diversas ramificações que se desenvolviam conforme o espectador fazia escolhas que afetavam a trama, o filme demandou muito tempo e planejamento não apenas da empresa de streaming, mas também da equipe criativa por trás da série, o que atrasou a estreia da reduzida 5ª temporada da série.

Com tamanho também reduzido, passando dos esperados seis episódios para apenas três, os episódios inéditos “Striking Vipers”, “Smithereens” e “Rachel, Jack and Ashley Too” chegaram hoje à Netflix após um período curto entre o início da divulgação da série e a estreia em si, configurando uma temporada morna e abaixo das expectativas, atuações boas e execuções regulares.

S05E01 – Striking Vipers

Estrelado pro Anthony Mackie, o Falcão de “Vingadores”, e Yayah Abdul Mateen II, o Arraia Negra de “Aquaman”, já era esperado que o episódio atraísse tanto os fãs dos filmes da Marvel quanto da DC, que se dividem em grupos opostos na internet.  O que também já se esperava é que as atuações seriam satisfatórias, com os dois assimilando bem seus papéis: o de dois amigos da faculdade, fãs de vídeo games, que se reencontram anos depois e se reaproximam graças a um game.

Além do foco às estrelas do cinema, os fãs brasileiros aguardavam ansiosamente o episódio por ele ter sido gravado totalmente no Brasil, em São Paulo. Entretanto, a cidade, os cenários e os locais que facilmente identificáveis da cidade não influenciaram a trama em nada. Todos na cidade falavam inglês fluentemente e as tecnologias eram um CTRL C + CTRL V das já exibidas em outras temporadas, nenhuma adaptação a outros contextos sociais. Um fan service dos mais baratos.

Focando na história em si, que sempre foi um diferencial de Black Mirror, “Striking Vipers” é o que mais se destaca da nova leva de episódios, mas é ofuscado facilmente por seus antecessores. Sem deixar muitos spoilers no texto, a reflexão trazida a respeito do impacto das tecnologias nas relações é uma iniciativa interessante, pois é ao redor do tema que a história se desenvolve, com o diferencial de trazer um olhar a respeito das relações sexuais em si.

De forma geral, o primeiro episódio da 5ª temporada é bem executado, mas sem tensão ou fatores que prendam quem assiste ou um plot twist que justificasse a espera por um grande clímax típico da série. Em uma temporada anterior, “Striking Vipers” passaria um pouco batido, como o “meio-termo” entre os melhores e os piores.

S05E02 – “Smithereens”

O mais misterioso dos episódios, a sinopse e os trailers de “Smithereens” apenas descreviam sua história como uma viagem de um motorista de aplicativo sai totalmente do rumo e se transforma em uma perseguição policial.

Com a configuração que mais se aproxima com o tom “Black Mirror” já conhecido nas primeiras temporadas, seja na fotografia, elenco ou cenários britânicos, a trama parte de um princípio simples de ser crítica ao vício das pessoas em redes sociais em um contexto de que isso leva um simples motorista de Uber (há um nome diferente do app real) a sequestrar uma pessoa.

Mas a trama fica nisso. Mesmo que uma boa e consistente tensão se materialize enquanto ocorre a negociação entre polícia e sequestrador, a espera da revelação dos motivos de um crime tão randômico e inesperado, o final é mais uma decepção. A história se revela galhofa e vai contra a ideia de Charlie Brooker, criador da série e autor do episódio de que as tecnologias não são as vilãs, mas são instrumentos utilizados pelos seres humanos.

Desta forma, o que poderia ser o episódio redentor da 5ª temporada é encerrado com um grande sentimento de “WTF?”, desperdiçando chances de explorar melhor temas como a invasão de privacidade, o poder das empresas de tecnologia e a própria geração Vale do Silício.

S05E03 – “Rachel, Jack and Ashley Too”

Miley Cyrus interpretando uma cantora pop que está cansada de produzir sempre o mesmo tipo de conteúdo após se tornar uma mercadoria explorada pela indústria, sua empresária e pela sociedade. Escola de Frankfurt já falava sobre e outras centenas de filmes também.

Diante disso, o que se esperava é que o diferencial Black Mirror fosse a presença de uma boneca que emulava a personalidade da própria Miley adquirida por uma fã incondicional da cantora para superar a solidão e a sensação de ser uma “outsider”. Mas não. A réplica de Ashley O. é apenas uma brecha para adicionar momentos de humor e levar as irmãs protagonistas à ação, não representando nenhuma gatilho para reflexões sobre a crescente onda de chat bots e inteligência artificial.

Com uma trama repleta de furos, como o fato de duas adolescentes invadirem uma mansão de uma estrela, sem desenvolvimento das personagens, das relações entre elas e de momentos dramáticos, “Rachel, Jack and Ashley Too” é praticamente uma versão da série para crianças, ou um “Black Mirror” editado para a Sessão da Tarde da Globo. Ao fim, Miley Cyrus poderia ter sido substituída por qualquer outra cantora pop com uma legião de fãs que pudesse dar audiência para a série.

A temporada completa

Com episódios que nem chegam a ser inconsistentes, mas simplórios e básicos, a 5ª temporada deixa a impressão de que foram escritas e produzidas novas histórias após “Bandersnatch” apenas para cumprir tabela, não deixar os fãs esperando, apenas atrair a audiência que grandes grupos de fãs naturalmente trazem.

Além disso, as reinterpretações e criações de novas tecnologias para retratar dilemas e situações da vida humana em sociedade de forma crítica e inovadora não se mostram presentes nos três episódios. São apenas reciclagens das que já foram recicladas anteriormente, como os pequenos implantes postos nas têmporas, provavelmente colocados nas histórias apenas para mostrar que todas elas se passam em um mesmo universo, sendo ele uma criação de Charlie Brooker.

E isso mostra que a síndrome de JK Rowling chegou ao roteirista, que, para estabelecer o monopólio sobre sua marca e seu universo e tentar posicionar episódios independentes em uma mesma linha, menospreza o ato da escrita e da reflexão narrativa e supervaloriza referências, easter eggs e o buzz que isso gera entre aqueles que assistem.

Talvez as críticas a essa nova temporada faça com que Brooker e a Netflix abram os olhos para entender a importância de acolher novas histórias, novos contadores de histórias e novas visões sobre “Black Mirror”, voltando às origens que fizeram com que a série se tornasse o fenômeno que é hoje.

Comente aqui!!!!