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REVIEW | Euphoria é especial? 1° temporada (c/spoilers)

"Assim como tudo é belo nos altos, tudo se desvanece nos pontos mais baixos." Criados para pensar que o ensino médio é o ápice de suas vidas, eles se encontram despreparados emocionalmente para o mundo e para lidar consigo mesmos.

Quando os primeiros episódios de Euphoria saíram, para ser mais exata, seus dois primeiros, não ficou claro qual era sua intenção além de polemizar e chocar. Com extremos visuais, beirando o politicamente incorreto, a série consegue mudar totalmente a primeira impressão que você possa ter tido, te cativa e te imerge numa trama caótica, crua e real do começo ao fim.

Mesmo que a série tenha sido renovada para a segunda temporada, alguns dos seus arcos se fecharam em seu primeiro ano. No 7° episódio descobrimos um pouco sobre a infância de Cassie e podemos entender como sua criação e o relacionamento conturbado dos pais moldou suas expectativas e sonhos para si mesma. O abandono de seu pai a fez vulnerável, acreditando que o amor iria preencher o vazio que sentia.

Então ela vive e respira para se apaixonar e agradar seus parceiros mesmo que isso signifique deixar seu bem estar e privacidade de lado. Ela acredita que tudo será para sempre e quando não dar certo ela apenas começa de novo. Mckay não é diferente. Ele desde o começo a enxerga através dos olhos dos outros e a trata da maneira objetivada que acredita ser o que ela goste, ao mesmo tempo em que tenta mudar sua aparência e seu jeito em público.

Euphoria questiona o por que num mundo machista a mulher pode ser o que quiser no quarto, mas em público ela precisa ser uma “santa”?

Ele não é diferente dos outros, e ao saber que ela está grávida joga todas as fragilidades dela na mesa e a deixa sozinha. Toda sequência do aborto foi crucial e representou muito mais do que a perda de um filho mas também, de seus sonhos e expectativas em relação ao amor.

Já Kat manteve sua história do começo ao fim, por mais que seu empoderamento seja maravilhoso e motivador, ainda me incomoda sua exposição na dark web para pedófilos. Acredito que na segunda temporada isso possa ser mais explorado. Sua declaração para Ethan foi o que todos esperavam mas ao mesmo tempo me pergunto se o que impulsionou ela a fazer isso foi o medo que seu último cliente a causou. Por que aquilo foi muito sinistro!

Outro ponto questionável foi o relacionamento de Maddy e Nate. Não houve qualquer conclusão entre eles. Com certeza será mais uma vez o centro da segunda temporada mas deixar as coisas assim no primeiro ano, me parece quase que inconsequente. O estereótipo de que o homem branco e rico sempre irá se safar é o ideal a ser mostrado? Maddy irá continuar nesse relacionamento abusivo mesmo tendo consciência de que não é bom para ela? É como o que Cassie, Rue, Kat e Lexi falam, ao imaginar ambos se casando e vivendo nesse ciclo vicioso e doentio para sempre. Nós sabemos que isso é real e acontece todos os dias, mas de certa forma houve quase uma romantização de algo em que as mulheres lutam diariamente para se libertarem e seria legal ter visto algo positivo saindo dessa situação.

É preciso ressaltar que o personagem Fez por algum motivo inexplicável recebeu uma resposta positiva do público. E nesse último episódio acredito que possa mudar a mente de algumas pessoas. Ele é um traficante, sempre foi, tratar bem Rue não muda isso. No final do dia ele faz o que for preciso para seu benefício inclusive espancar um homem na frente do seu filho.

O relacionamento conturbado e confuso de Jules e Rue chega a um ponto crucial no último episódio. Foi interessante ver Jules admitindo que seu objetivo em se envolver com homens é sobre conquistar a feminilidade. Mostra que apesar de desinibida ela está longe de se encontrar sexualmente. E com isso ela pode acabar machucando Rue. Afinal, ao contrário dela, Rue se mostra tímida e inexperiente com a possibilidade de se envolver com alguém pela primeira vez, esse alguém sendo sua melhor amiga. Jules não está pronta para um relacionamento, enquanto continuar fugindo de si mesma.

Finalmente chegamos a nossa personagem principal e o quão incrível tem sido a jornada de altos e baixos de Rue. Primeiro é preciso reafirmar que Rue é uma narradora pouco confiável como ela mesmo falou. Por isso é comum que por muitas vezes as cenas apresentadas sejam aleatórias ou fora de contexto. Como nos últimos dois episódios em que Rue está em seu ponto mais baixo, passando por uma crise e tendo recaída, toda a fotografia da série muda constantemente. Mostrando o caos em que seu corpo e sua mente se encontram.

Há alguns episódios atrás havia mencionado o quão volátil e perigoso seria ela confiar sua reabilitação em outra pessoa, acreditar que seu sentimento por alguém seria mais forte que seu vício. Assim como tudo é belo nos altos, tudo se desvanece nos pontos mais baixos. Rue está doente e sempre esteve, ignorar isso era só questão de tempo até que viesse a tona. Ir para reabilitação não é o suficiente, ela precisa de acompanhamento psicológico para seu transtorno mental. Coisa que até então não foi mencionado ou explorado na série.

Sua decisão de ficar para trás e não seguir Jules mesmo tendo sido sua ideia mostra o quão desequilibrada ela está e como ninguém percebeu isso. Vivemos em um mundo que tudo está bem até que seja tarde demais. As aparências ou mesmo seus próprios problemas sempre serão mais importantes. É mais fácil acreditar que a pessoa do seu lado está bem e melhor que você, do que apenas olhar uma segunda vez para ela com mais atenção.

Toda sequência de Rue tendo uma recaída e se entregando ao vício foi visceral, real e inevitável. Ela ainda não atingiu o fundo do poço e seu vício é muito mais profundo e movido por traumas e problemas mentais que parecem ser ignorados pelas pessoas mais próximas a ela.

Seu futuro é incerto assim como os de todos os outros personagens. Criados para pensar que o ensino médio é o ápice de suas vidas, eles se encontram despreparados emocionalmente para o mundo e para lidar consigo mesmos.

Euphoria é definitivamente especial.

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