Cinema Crítica Criticando

Crítica | Bacurau – Um western cangaceiro atômico


O cinema nordestino tem se provado como o pólo cinematográfico mais político do país. Ao longo das décadas, as produções da região buscaram, através da valorização cultural, apresentar um Nordeste que fugia dos estereótipos. Do sertão aos centros urbanos, os dilemas tratados em tela conectam os diferentes “Brasils” e pintam as transformações de nossa sociedade, em diferentes campos, e nos ajudam a compreender o Brasil como um todo. Este momento atual do cinema nordestino tem como marco Baile Perfumado, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, uma direção conjunta que mostra o cotidiano do cangaço – com imagens de Benjamin Abrahão de 1936 apreendidas pela Ditadura do Estado Novo e recuperadas apenas em 1960. E, acompanhando desta perspectiva e história recente do cinema nordestino, não é infundado dizer que Bacurau possui a energia espiritual do longa de 1996.


Realizado por Kleber Mendonça Filho (O Som ao Redor, Aquarius) e Juliano Dornelles (Mens Sana in Corpore Sano) Bacurau conta a história de uma cidade aparentemente pacata do Nordeste brasileiro. Alguns anos à frente de nosso presente, os habitantes de Bacurau enfrentam a pobreza, a sede e a morte de um de seus cidadãos mais importantes – Carmelita, de 94 anos. O filme é tecnicamente impressionante. Utilizando de elementos e estruturas do cinema das décadas de 60 e 70, o longa emula perfeitamente o faroeste (em especial, o western spaghetti do cinema italiano) e os filmes B, como os sci-fi americanos e os filmes de artes marciais (que, embora não criados para serem filmes B, nos cinemas e televisão do Ocidente ganhavam este rótulo).

Transições de cena, zoom-ins aparentes, closes, grande uso de câmeras na mão e em gruas (guindastes) para a realização de travellings (todo movimento onde a câmera, de fato, se desloca – indo de um ponto a outro. É diferente da panorâmica, onde a câmera gira sobre o próprio eixo, mas sem sair de um ponto físico)… Kleber Mendonça e Dornelles utilizam destes recursos de forma muito matemática para realizar um filme que, de fato, traz toda energia e estética das produções feitas durante esta época. Sergio Leone e John Carpenter são as inspirações principais, mas é possível perceber a presença espiritual de diretores como Peckinpah e Glauber Rocha e do cinema australiano (seja no movimento ozploitation ou em como trata a questão do indígena, do pertencimento de uma terra – ou mesmo nos takes amplos de paisagens desérticas). É uma obra que, de forma muito prazerosa, homenageia a história do cinema – mas que não se prende apenas a ela, sabendo exatamente onde realizar atualizações para potencializar a atenção da história que está sendo construída e das discussões levantadas. Diferente de muitas obras – em especial, hollywoodianas – Bacurau não cai na armadilha de se tornar autoindulgente.

Com Bacurau, Kleber Mendonça Filho reafirma o teor político de suas obras. A grande diferença é que, aqui, o diretor explora mais os subtextos – e isto é uma grande vantagem. Se em Som ao Redor e Aquarius é mais direto, no novo longa busca dar preferência ao metafórico – isto ajuda Bacurau a conectar-se com espectadores de diferentes nacionalidades, que podem ressignificar a obra para sua realidade. Além disso, o diretor abre espaços na obra para discutir diretamente questões ligadas a outras nações, outros públicos. Isto, aliado a sua qualidade técnica, faz de Bacurau um filme com a fórmula certa para se destacar em premiações. Ao ser mais figurativo, Kleber Mendonça Filho também se afasta um pouco mais da possibilidade de seu filme ser alvo de críticas e censuras, como aconteceu com Aquarius em 2016 – quando equipe e elenco se posicionaram abertamente contra o impeachment da presidente Dilma Roussef. O que quero dizer aqui, em bom português e sem nenhum tipo de rodeio, é que o perfil dos críticos políticos dos trabalhos de Kleber Mendonça Filho é de pessoas que não são inteligentes o suficiente para entenderem figuras de linguagem e desenvolverem debates menos literais (aliás, sequer realizam debates). São do tipo de pessoa que não sabem interpretar uma obra de arte – pois não têm contato com a arte, não têm interesse pela arte e não buscam se aproximar dela – nem são inteligentes o suficiente para, por exemplo, entenderem como funcionam leis de incentivo. São de pessoas que, tomadas pela polarização política do Brasil contemporâneo, distorcem fatos em favor daquilo em que acreditam. Sem expor diretamente – dentro e fora das câmeras – nenhum tipo de pauta, não há nada que leve os críticos políticos de Kleber Mendonça Filho a boicotarem seu trabalho por conta de seu posicionamento – não que lógica e moralidade contem para muitos destes mas, ainda assim, é importante ressaltar.

Estas singelas metáforas e discussões estão espalhadas pela cidade e pelas 2h11 de filme, como o canto entoado durante um velório, já nos primeiros minutos – quase um momento de suspensão, acompanhado de uma construção sonora bem orquestrada, que celebra a cultura nordestina. Ou na referência quase sussurrada da escola de Bacurau, batizada de João Carpinteiro (John Carpenter, em inglês). Outras, mais densas, refletem o lugar do brasileiro, a invasão – física ou não – de países de 1° mundo na política e sociedade de nações subdesenvolvidas e emergentes e o crescimento da Direita Conservadora no cenário político internacional – em especial, o governo de Donald Trump. A todo instante, Bacurau nos joga informações a serem digeridas e encaixadas em nosso contexto político e histórico. Por vezes, se torna expositivo demais – como certo momento onde um personagem traduz uma das ideias do longa, tirando a possibilidade do espectador ficar com a dúvida para si ou revisitar o filme para interpretá-la. A direção certamente tem ciência destes momentos e opta por privilegiar a entrega de suas mensagens – uma escolha consciente em detrimento do que consideram mais importante para a obra. Mas, sem dúvida, a mais bela e poderosa entrelinha está na forma como o museu de Bacurau é retratado. Uma alegoria para o próprio respeito pela história de um povo, o museu de Bacurau é a testemunha silenciosa que nunca esquece o que viu. A mensagem é bem clara: aqueles que não se interessam pela história, estão fadados a perder. Aqueles que preservam sua história – e suas origens – sobrevivem.

Dornelles e KMF usam da fictícia Bacurau para exemplificar a força do coletivo. É interessante notar como, a princípio, a dupla indica o protagonismo do filme em Teresa (Barbara Colen) e, ao longo da narrativa, expande para que a cidade e seus habitantes sejam os condutores. Bacurau é, antes de mais nada, uma ode à vida do brasileiro. Em especial, do brasileiro nordestino. O design de produção é pontual para que Bacurau seja crível, a típica cidade sertaneja. Esta conexão e este reconhecimento são essenciais para que a história seja ainda mais absorvida pelo público brasileiro. A trilha sonora também auxilia na construção desta diegese, reforçando a atemporalidade do longa e nos guiando por cada atmosfera necessária, por vezes bem distantes entre si, de forma muito orgânica, como tensão, doçura, melancolia ou revolta. É importante notar como, mesmo administrando todos estes elementos, KMF e Dornelles não perdem o caráter experimental e inventivo – algumas das marcas que tornam o cinema brasileiro tão rico. Além de usarem lentes anamorphic que, aliadas a fotografia, dão este charme de época e amador ao longa, os diretores buscam trazer takes que não foram concebidos originalmente, mas nascem do processo de filmagem. Como assim? Um bom exemplo é em uma determinada cena onde uma personagem segura uma foto e uma mosca pousa em sua mão. Porém, a mosca (que creio ser real, não foi criada digitalmente e nem é um animal adestrado), por acaso do destino ou daquelas sorte que acometem os processos artísticos vez ou outra, pousa justamente no lado em que um personagem falecido ocupa na foto. Ou mesmo quando realizam suas filmagens da natureza árida da Paraíba, ou quando filmam as reações do elenco de apoio. O olhar atento à vida que ocorre em paralelo traz vitalidade – e verdade – para o resultado final.

Outra escolha que fortalece esta imersão é a escolha de reunir atores profissionais com não atores*, habitantes da cidade onde as gravações foram realizadas. Os diferentes perfis, vozes e a mistura entre a naturalidade e a construção dão certo charme para o longa e nos ajudam ora entrar na ficção, ora nos tirar dela. No elenco, temos rostos conhecidos do cinema nacional e internacional. Sônia Braga retoma a parceria com Mendonça Filho em mais uma atuação muito interessante, assumindo suas rugas sem medo ou pudor. Karine Teles também está presente, e digo com todo o clubismo possível que a atriz sempre tem minha atenção depois de seu trabalho em Benzinho – que considero uma das atuações mais gostosas que vi em 2018. Barbara Colen e Thomas Aquino normalmente estão no centro dos acontecimentos, e conduzem bem a narrativa. Silvero Pereira, o Lunga, constrói um personagem bem interessante, e sua própria concepção no roteiro tem o objetivo de quebrar algumas expectativas – ou preconceitos, se preferir. O elenco estrangeiro é encabeçado por Udo Kier, normalmente um coadjuvante de luxo, que aqui tem um pouco mais de espaço para desenvolver seu personagem – e sua já habitual presença e tom de ameaça.

Enfim…

Bacurau é um western cangaceiro atômico. Um filme que mimetiza e se referencia nas estruturas de alguns dos momentos mais importantes do cinema, tecnicamente incrível. Em um futuro não tão improvável de uma terra não tão distante, Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles utilizam de metáforas bem construídas – por vezes, expositivas demais – para entregar reflexões sobre o contexto histórico e político de públicos de diferentes nacionalidades.

Bacurau é um grito de resistência e revolução. Do Nordeste, da História, do cinema brasileiro. É exemplo do melhor de nossa produção artística e criativa, refinada em sua construção mas que não se permite perder os detalhes mais gentis, como um pôr-do-Sol ou o pouso de uma mosca. Olhar resultado de uma arte cara, feito sem recursos, em um país que cada vez mais sucateia suas produções e profissionais. Bacurau, apesar de fora do mapa, continuará existindo. A arte brasileira também. Viva Bacurau!

*Não ator: é como se define aquele que não exercita ou nunca, de fato, interpretou. Muitos diretores de cinema e teatro utilizam não atores em seus projetos por acreditarem que é uma forma de trazer naturalidade e disponibilidade que possuem outro tipo de qualidade das entregues por um ator. O “não ator” aqui é apenas o uso de um termo para explicar sobre a escolha da direção acerca do elenco de Bacurau, e não explicitar que os intérpretes não são atores profissionais – definição esta que é muito mais do que uma certificação ou quantidade de trabalhos realizados. Ao meu ver, aquele que se coloca à disposição do jogo da atuação está, de fato, atuando. Portanto, o elenco de Bacurau é formado, em parte, por não atores, mas todos são, de fato, atores.

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