Crítica

Legalidade: uma novela histórica com histórias demais

Tendo como plano de fundo o famoso movimento intitulado Legalidade, liderado pelo ex-governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, o filme Legalidade, de Zeca Brito, o longa-metragem estreia após dois anos de sua filmagem, debutando no Festival de Cinema de Gramado.

Liderado por Brizola, o movimento que dá nome ao filme surgiu após a renúncia do então presidente Jânio Quadros, exigindo a posse de seu vice, João Goulart, o correto do ponto de vista legal, em um cenário de animosidade das forças armadas, que levaria, posteriormente, à Ditadura Militar.

Entretanto, como dito, o evento histórico tem como função de dar base à história que, em tese, deveria ser a principal: o triângulo amoroso entre Cecília, interpretada por Cleo Pires, e os irmãos Luís Carlos (Fernando Alves Pinto) e Tonho (José Henrique Ligabue).

E aí mora o principal problema de Legalidade, que acaba por gerar outros, como o ritmo impreciso e dificuldade em aprofundar o desenvolvimento dos fatos e das personagens: o excesso de tramas. Ao contrário do que se espera, o filme não foca no relacionamento amoroso, mas também há um grande foco nos desdobramentos políticos, na vida de Brizola e ainda em uma personagem do futuro, interpretada por Letícia Sabatella, que, em 2004, busca entender os eventos do passado para compreender sua própria história de vida.

Assim, há um “vai-e-vem” narrativo cansativo e com problemas de montagem, com uma tentativa de mostrar o máximo sobre todos esses pontos de vista, personagens e histórias, algo que torna Legalidade muito semelhante a uma novela, com núcleos mais sérios, outros românticos e até um mais humorado, o que não funciona em 2 horas de filme. Sobram personagens e enredos, faltam desenvolvimentos e conclusões.

Inclusive, é uma surpresa que tenham conseguido contar tanta coisa nesse tempo tão reduzido, mesmo que não seja de forma perfeita, irretocável.

A trilha sonora intensifica essa sensação de estar assistindo um folhetim, com muitas músicas sendo o tema de personagens, sendo repetidas, ao invés de dar valor à trilha sonora mais subjetiva, instrumental. Chega a ser piegas e cômico que conseguimos prever certos desfechos por conta do início de determinada música-tema.

Quanto às atuações, Cleo e Fernando Alves, parte do casal, funcionam de forma aceitável, não tendo sido exigido muito mais que o papel de “femme fatale” da atriz, infelizmente. Leonardo Machado, que faleceu precocemente antes da estreia do filme, dá vida a um ótimo e enérgico Brizola, mostrando que talvez o filme pudesse ter seguido o caminho de um biografia ou retrato histórico do movimento, uma vez que as melhores e mais emocionantes cenas são as que ele está em cena, enfrentando seus demônios, lutando por seus ideais e vivendo sua vida privada. A pior parte fica José Henrique, a outra parte do triângulo amoroso, que tem mais tempo de tela que o seu concorrente, mas atua de forma artificial, além de não ter qualquer química com Cléo.

Mesmo assim, com problemas de ritmo e alguns detalhes a serem acertados, Legalidade acerta em cenas de movimentação popular, protestos e ação, fazendo bom uso dos recursos disponíveis e transmitindo emoções e sentimentos cívicos de forma sublime. Outro ponto a favor da tese de que o filme poderia ter seguido esse caminho mais político.

Outro ponto positivo é a bom retrato histórico de um movimento que costuma ser esquecido, deixado em segundo plano, como uma das principais fontes de resistência contra a crescente animosidade antidemocrática da década de 60 no Brasil.

Com algumas gorduras a serem cortadas, podendo ter sido um filme completamente diferente, Legalidade escolhe uma abordagem de seguir pessoas “comuns” envolvidas em momentos decisivos da história, mas não abraça completamente essa identidade, ficando no meio do caminho entre gêneros diversos, se assemelhando a um folhetim, instrutivo e que pode nos mostrar mais sobre uma parte extremamente importante da nossa história enquanto nação, algo de vital relevância para uma época em que a história não é apenas esquecida, mas também apagada.

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