Cinema Crítica

#mostrasp | Espelho Africano – Documentário questiona como europeus enxergam a África

Qual é a visão tem um cineasta da Europa Central sobre o continente africano? O suíço Mischa Hedinger em um movimento ousado traz à 43º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo o documentário “Espelho Africano“. A obra de 90 minutos reúne imagens de arquivo e áudios de René Gardi, seu conterrâneo que faleceu em 2000 que tinha fascinação por aquilo que ele acreditava ser a África.

Tive a oportunidade de conversar com Mischa Hedinger, em sua passagem no Brasil promovendo seu documentário que está concorrendo na competição de Novos Diretores da Mostra paulista. Ele conta que lembrou da obra de René Gardi após uma longa estadia na África Ocidental. Na viagem, o suíço tomou consciência de seus privilégios como homem branco europeu e entendeu que sua perspectiva do que eram as terras africanas ocorria de forma estereotipada e superficial.

O processo de criação do filme durou 5 anos, onde Hedinger atua como roteirista, diretor e montador mas defende o monopólio criativo com o argumento de que o desenvolvimento dependia totalmente de pesquisas sobre a obra de René Gardi e por isso ele sentiu a necessidade de exercer as três funções primordiais para a execução de um filme. Com vídeos e diários Hedinger se viu com a missão de desconstruir a ideia estereotipada e colonialista perpetuada por René nos anos 60 mas também reconstruir uma imagem usando o seu legado: “As pessoas que não conhecem o trabalho dele poderão assistir de uma nova maneira. É reconstrução da desconstrução”. Mischa deixa claro que de certa maneira incluiu suas opiniões dentro do documentário apresentando contraste entre imagens e discurso, usando René Gardi como uma ferramenta para questionar um certo pensamento tradicional.

Mischa entende de forma clara seu local de fala e esclarece que tudo retratado no documentário vem de um ponto de vista privilegiado. Quando pergunto se ele tem medo de que o público, por causa dos jogos de contradição, entenda seu filme de uma forma errada, a resposta vem de forma enfática: “Não! Eu confio que eles irão assistir da forma que eu gostaria”. Sobre qual reação ele acredita que os brasileiros – um povo miscigenado repleto de descendentes europeus e africanos – terão, ele lembra que em outros países onde o filme foi exibido, espectadores negros não receberão tão bem o filme, já que pra eles é doloroso assistir a segregação e o racismo estrutural no cinema. Como o filme é feito do ponto de vista branco, Hedinger considera que “Espelho Africano” seja voltado para o público caucasiano.

Longe de ser um filme de fácil consumo, “Espelho Africano” cumpre a missão de debatermos qual é nossa visão da África Ocidental e oferece uma proposta de esforço para mudarmos essa perspectiva. Muito tempo passou e ainda perpetuamos ideais racistas que surgiram no século passado.

“Espelho Africano” será exibido na 43ª Mostra de Cinema Internacional de São Paulo.

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