Cinema Crítica

Crítica: O Irlandês – Uma apresentação do que é Martin Scorsese

Depois de deslegitimar a Marvel como cinema, Martin Scorsese recorre à maior plataforma de streaming para lançar seu 3736228º filme conquistando uma liberdade criativa nunca vista antes e evitando o transtorno de uma possível frustração em relação à bilheteria. “O Irlandês” chega na Netflix em um esquema muito parecido com “Roma” de Alfonso Cuáron de 2018: conquistando um público mais exigente e prevendo algumas estatuetas nessa temporada de premiações. Protagonizado pelos enormes Robert DeNiro, Al Pacino e Joe Pesci, o filme é uma adaptação do livro “Ouvi Dizer Que Você Pinta Casas” de Charles Brandt e conta a história de como Frank Sheeran, veterano da Segunda Guerra Mundial e matador de aluguel se envolve com o desaparecimento de Jimmy Hoffa, líder dos sindicatos de caminhoneiros dos Estados Unidos.

Scorsese é quase um movimento cinematográfico por si só. Capaz de desenvolver filmes infantis como “A Invenção de Hugo Cabret”, dirigir musicais igual a “New York, New York” e dominar a área R-Rated* com o gigante “Taxi Driver”. Estudar a filmografia de Scorsese é quase uma lição imprescindível para cineastas de pós MS; Steven Spielberg, Quentin Tarantino e mais recentemente Todd Phillips usam e abusam do Scorsese-verse e mostram como é possível se apropriar de uma linguagem exclusiva de um cineasta sem perder sua própria identidade. Em “O Irlandês” Martin Scorsese revisita sua obra e não se acanha em usá-la como inspiração para o novo longa. Quem assistiu “Os Bons Companheiros” está preparado para consumir uma grande homenagem de seu mais recente filme a um dos mais importantes momentos da carreira de Scorsese. A temática mafiosa, DeNiro interpretando um irlandês ao redor de italianos e muita violência em uma história épica (no sentido literal e figurado) são pontos em comuns com “O Irlandês” e várias passagens da carreira do cineasta.

Com aval da Netflix, Martin lança “O Irlandês” com uma versão de mais de 3 horas e deixa transparecer que a duração do filme foi apenas um capricho do diretor. Seria possível não comprometer o enredo e cortar cenas desnecessárias, mas o cineasta provavelmente quis entregar uma adaptação bem feita, exibir todo o potencial fílmico da obra e de uma forma discreta, segregar um público não tão intelectual, que aceitaria passa 200 minutos vendo “Vingadores: Ultimato” mas acreditaria um exagero em outra situação.

O último lançamentos de Scorsese nos Cinemas teve um desempenho desagradável de bilheteria: “Silêncio” lançado em 2016 que não conseguiu pagar com os 23 milhões de dólares, ganhos no box office, o orçamento de 46 milhões. Algo que muito provavelmente aconteceria com “O Irlandês”, caso não fosse um original Netflix. O filme teve um gasto de aproximadamente 160 milhões de dólares, por causa do CGI investido na intenção de rejuvenescer seu elenco e possibilitando a transição entre seis décadas da história. Os efeitos estão longe da perfeição, mas consegue transmitir uma suficiente ideia do que propõe.

Perto da temporada de premiações, “O Irlandês” é um grande concorrente, já que pelo seu cuidado artístico ganha chances de estar em grande parte das categorias técnicas e principais. Scorsese certamente será indicado como Melhor Diretor, o elenco sazonado com DeNiro e companhia também serão destaques, os tiros devem conquistar nomeações nas categorias de som e a fotografia, mesmo que pensada para ser consumida em TV e mobiles, possui uma remota chance de se destacar.

Perto dos grandes destaques de Martin Scorsese, “O Irlandês” chega em um momento conturbado do cinema: a ascensão do streaming e a febre super-heroica levantam debates sobre a legitimação da sétima arte. O cineasta não parece se preocupar em ter seu filme assistido em celulares e computadores, mas se incomoda com o grande sucesso da Marvel. A verdade é que por razões óbvias o Scorsese pode (e deve) meter o bedelho e classificar o que é ou não é válido no cinema. “O Irlandês” é a resposta de todos os questionamentos levantados por uma nova geração ainda leiga sobre o que é cinema. De uma só vez nos é apresentado o gênio Martin Scorsese, sua trajetória e seu talento. Desculpe-me o linguajar, mas o cara é foda.

“O Irlandês” estreia na Netflix no dia 27 de novembro.

NOTA: 4/5

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