Crítica: Minha Mãe É Uma Peça 3 – Dona Hermínia está mais sensível mas não menos hilária

Personagens criados por atores não é novidade na história do cinema. De o Vagabundo de Chaplin até Jeca de Mazzaropi, o cômico sempre fundiu criador e criatura rendendo boas risadas e obras eternas para o imaginário popular. Apesar de serem a representação de seu tempo, estes personagens estão longe de serem datados e seus gracejos conseguem conquistar público depois de décadas de lançamento. Além de Mazzaropi, humoristas que interpretam seus próprios personagem faz parte da cultura brasileira: Chico Anysio, Gorete Milagres, Renato Aragão e adentrando a nova geração com Tatá Werneck, Marcelo Adnet, Paulo Gustavo… Este último lança em dezembro o terceiro filme da franquia “Minha Mãe É Uma Peça” repetindo o papel de Dona Hermínia, personagem inspirada na mãe do ator e que já está cravada no panteão do humor brasileiro.

“Minha Mãe É Uma Peça 3” não tem um enredo muito definido, mas se resume em narrar como Hermínia se sente sozinha e desocupada desde que os filhos cresceram e começaram suas próprias famílias. O filme troca pela terceira vez de direção sendo comandado dessa vez por Suzane Garcia que já trabalhou com Paulo Gustavo na série “A Vila” e nos longas inspirados na obra de Monica Martelli: “Homens São de Marte… E É Pra Lá Que Eu Vou” e “Minha Vida Em Marte”.

O filme aparenta finalizar uma trilogia já que Suzana Pires também será responsável por uma série derivada da obra. Depois do teatro e cinema, “Minha Mãe É Uma Peça” chega na plataforma Globoplay em 2020 com 4 temporadas confirmadas. Apesar de agradar seu público, Dona Hermínia é uma personagem barulhenta e por isso será necessário tomar cuidado para não saturar esta galinha dos ovos de ouro.

A troca de idealizador não é nada sútil.  A preocupação com estética e o cuidado em não perpetuar um humor ofensivo fica evidente desta vez. Com um visual mais coeso o filme se torna mais prazeroso de assistir; as piadas gordofobicas que sempre incomodaram perdem espaço para um humor mais leve, porém não menos histérico. Em uma das cenas, Hermínia tira sarro de alguns colegas de uma sessão de terapia em grupo; nesta situação as risadas não são por causa das piadas problemáticas, mas pela identificação de um discurso muito comum, principalmente em família, no desmerecimento da psicologia e que subestima a saúde mental. É melhor rir para não chorar.

Não poderia terminar o texto sem falar do bendito beijo. Em setembro deste ano a internet foi à loucura após ser confirmado que mesmo tendo um casamento homoafetivo, o filme não mostraria um beijo entre os noivos. Houve promessas de boicote e a cultura de cancelamento foi acionada. Paulo Gustavo se justificou dizendo “que não precisava esfregar a sua opinião própria na cara alheia” e acabou piorando a situação. A verdade é que o público consumidor de “Minha Mãe É Uma Peça” (e por público consumidor entenda-se quem compra ingresso de cinema) ainda é majoritariamente branco hétero e cis gênero, e convenhamos que pra ter dinheiro para ir ao cinema – com esse preço absurdo – já os qualifica como (no mínimo) classe média. Gustavo entende que essa audiência não aceitaria bem um beijo entre dois homens e com medo de perder o posto de maior bilheteria do cinema preferiu vetar este afeto tão tradicional na cerimônia. Vale lembra que o ator não beijou seu marido Thales Bretas em seu próprio casamento.

Claro que eu adoraria ver o beijo, mas seria injusto dizer que o filme é menor pela falta deste momento. É uma pena que não tenha acontecido já que o longa aborda temas tão delicados como, por exemplo, a infância de um LGBT de uma forma tão sensível que tenho certeza que um carinho mais íntimo entre dois homens seria tratado de uma forma sutil e conseguiria agradar todos os públicos. Bom, se serve de consolo, nenhum casal, homossexual ou hétero, se beijam no filme, tá?

É inegável o impacto de “Minha Mãe É Uma Peça” para o cinema nacional e Dona Hermínia já é um personagem eternizado apesar, ou por causa da constante evolução. O terceiro filme da saga deve lotar as sessões como já é tradição. Mais leve, mais colorido e mais sensível, “Minha Mãe É Uma Peça 3” conclui com sucesso a famosa trilogia.

“Minha Mãe É Uma Peça 3: O Filme” deve estreia no dia 26 de dezembro.

NOTA: 3/5

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