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Crítica – Os Miseráveis: Não há ervas daninhas nem homens maus

Junho de 2018. Copa do Mundo de Futebol. França versus Croácia. A equipe francesa vence de 4 a 2, levando torcedores por toda Paris à loucura. E é assim que se inicia “Os Miseráveis”. Não, eu não estou enlouquecendo e nem falando do romance de Victor Hugo. A descrição é do filme dirigido pelo cineasta Ladj Ly que tem Montfermeil como cenário; mesmo bairro onde Cosette e Jean Valjean se cruzam em Les Mis. Na versão atual nenhum pão é roubado, mas um filhote de leão é sequestrado de uma família circense e a partir daí se desenvolve a história de três policiais do departamento anticrime abusando de sua autoridade para resolver o crime.

Tendo o gueto parisiense como plano de fundo, Os Miseráveis nos apresenta uma visão de Paris que pouco (ou nunca) é exportada. Montfermeil é um ambiente abandonado pelas entidades governamentais com exceção da polícia. O filme denuncia o descaso com a população – com ênfase nos mulçumanos – segregada da sociedade francesa e evidencia a violência policial principalmente com as crianças locais. A referência é clara aos protestos que aconteceram em Paris no ano de 2005, quando a população se revoltou com os abusos violentos da polícia local que afetava principalmente menores de idade.

O personagem com mais destaque é Issa, um garoto de aproximadamente 13 anos, que é a primeira e última coisa que vemos no longa. Issa apronta como um jovem de sua idade, mas é punido como um adulto e assim o desenvolvimento do personagem do começo ao final se torna o movimento mais brilhante durante “Os Miseráveis”. O Valjean da nossa geração, rouba do circo local um pequeno leão e acaba enfurecendo o dono da atração que conta com o auxílio da polícia para capturar o bicho e punir o “assaltante”. De forma fluída, Ladj traça um paralelo com a história de Victor Hugo e nos mostra que pouca coisa mudou desde o século 19.

O diretor, que já havia realizado um curta metragem homônimo e com a mesma temática, é completamente feliz nas escolhas que faz. A costura entre a narrativa e a estética nos aproxima ainda mais de Mentfermeil. Um dos destaques do filme é uso de drones, para aprimorar o visual e a narração do enredo.

“Os Miseráveis” têm a miserável missão de bater o sul coreano “Parasita” na disputa do Oscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira este ano, já que a obra foi indicada pela França e conseguiu passar pela primeira eliminatória. O longa disputou a vaga com “O Retrato de Uma Jovem em Chamas”, também francês e indicado ao Globo de Ouro, mas acabou levando a melhor. É possível ainda que ambos filmes sejam indicados ao Academy Awards, já que “O Retrato…” está cotado para concorrer a categoria de Melhor Fotografia.

Inteligente e longe do pretensiosismo, Ladj Ly cria uma obra que reflete abuso de autoridade, racismo, crise migratória e corrupção. Afinal, há sim, maus cultivadores.

 “Os Miseráveis” estreia dia 16 de janeiro nos cinemas.

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