Crítica | Adoráveis Mulheres – O adorável olhar de Greta Gerwig



Greta Gerwig é uma das artistas mais interessantes em atividade, hoje, em Hollywood. Com grandes trabalhos como atriz, diretora e argumentista, Gerwig tem uma visão completa sobre seus trabalhos. São suas experiências em diferentes perspectivas que a permitem explorar de forma tão eficiente seus projetos – principalmente, ao dirigir suas atrizes.

Em uma indústria que, apesar de cada vez mais reflexiva, ainda dá menos oportunidades para mulheres, Gerwig se tornou uma grande referência. Uma cineasta com a qual muitas e muitos desejam trabalhar, exatamente por verem em seu trabalho a oportunidade de dar destaque às mulheres (dentro e fora das câmeras).

É exatamente por isso que sua adaptação de Little Women era tão aguardada por muitos. A obra de Louisa May Alcott tem o feminino em destaque, alem de já ter recebido diversas outras adaptações para o teatro, cinema e tv. A história é também um coming of age sobre diferentes jovens mulheres, assim como seu último filme, Lady Bird. Restava saber como a obra se traduziria no olhar de Greta Gerwig e em nossa contemporaneidade.



Em Adoráveis Mulheres, que também tem roteiro assinado por Gerwig, acompanhamos a vida das irmãs March. Jo (Saoirse Ronan), Amy (Florence Pugh), Meg (Emma Watson) e Beth (Eliza Scanlen) mostram diferentes modos de viver sendo uma mulher na época da Guerra Civil Americana, discutindo temas como família, relacionamento e trabalho. O principal a ser notado em Little Women de 2019 é como Greta Gerwig possui completo domínio sobre o material de origem. Isto possibilita a cineasta manipular com muita liberdade sua adaptação, realizando escolhas que dão personalidade própria ao filme – tanto do ponto de vista da “roteirista” como também da “diretora”. Há, nitidamente, muita paixão e prazer em contar esta história, e isto chega ao espectador. Adoráveis Mulheres é um filme apaixonante e prazeroso que transita muito bem entre o drama, a comédia e o romance.

Ao abrir o filme, Greta Gerwig deixa bem claro o que vê de potência na obra de Alcott. Há certo pensamento de que estes artistas que fazem parte das minorias, que conquistaram seu espaço dentro da indústria, não podem deixar de falar sobre os temas aos quais estão inseridos. Ou, que devem sempre retomar essas discussões de forma mais forte, mais destacada. E este pensamento, consciente ou inconscientemente, está enraizado em muitos – sejam eles parte destas minorias ou não. Sejam eles artistas ou não. A grande questão aqui é que é necessário que estes profissionais tenham a liberdade para discutir também outras temáticas, que podem ou não serem influenciadas por sua vivência, por sua análise social, política e artística sendo um artista parte de uma minoria.

O que quero dizer aqui, simplificando, é: acreditar que um artista só deva fazer trabalhos que discutam primordialmente temas de sua minoria é, também, deixá-los de fora de parte significante das discussões. É, também, uma forma de exclusão. Estes artistas precisam de liberdade para comunicar aquilo que desejam comunicar, que sentem a necessidade de falar e como desejam falar.

Adoráveis Mulheres não é um filme feminista, então? Não fala sobre as questões da mulher? Errado. Adoráveis Mulheres é um filme extremamente feminino, que muito inteligentemente traça paralelos entre o escrito por Alcott no século XIX com o tempo presente. Gerwig não deixa de introduzir seu olhar contemporâneo, usando elementos como o sarcasmo para realçar o que foi colocado pela escritora. Acontece que Gerwig não abre mão do proposto por Alcott em Little Women, não modifica fatos ou tira a leveza. Gerwig não se preocupa em contestar a obra, mas em usá-la para nos fazer refletir a mulher no passado, presente e futuro de nossa sociedade. A diretora não precisa colocar peso para tornar Little Women uma obra feminista para as mulheres do século XXI – Little Women, naturalmente, já o é. E decidir por trazê-lo mais uma vez para as telas de cinema também o é.


Estruturalmente, Gerwig realiza uma escolha pontual que faz com que sua versão seja bem diferente das outras adaptações cinematográficas de Little Women. Em vez de optar pela linearidade, o roteiro do longa quebra a linha cronológica dos acontecimentos, trabalhando como presente a vida adulta dos personagens e inserindo flashbacks de sua infância e adolescência. Isto torna o filme mais dinâmico, assim como o torna mais refinado ao público atual. Há uma escolha assertiva de quais acontecimentos inserir e em que momento estes favorecem a narrativa, potencializando a leitura do espectador sobre os personagens. O montador Nick Houy, que tem experiência na montagem de longas coming of age como Lady Bird e Mid90s, tambem é eficiente e constrói um filme fluído e espontâneo. Há, porém, um excesso destes flashbacks – o que pode acabar cansando parte dos espectadores. Há a inserção de elementos visuais que localizam o espectador durante este vai e vem temporal, uma fotografia mais vibrante para cenas do passado e figurino e cabelo específico para cada fase de vida das personagens. Porém, a maior parte desta responsabilidade fica a cargo do elenco de Adoráveis Mulheres – e não são todos os atores e atrizes que entregam uma construção que colabore para tal, o que pode deixar alguns espectadores perdidos.

A direção de Gerwig é precisa, usando bastante a câmera parada e estática para direcionar a atenção do público para o elenco e paisagens, e também travellings (movimentos na vertical ou horizontal onde a câmera sai do lugar), normalmente acompanhando os personagens se deslocando pelos espaços ou durante diálogos. Os quadros que montam também são muito belos, aproveitando muito da fotografia de Yorick Le Saux (Personal Shopper). Jess Gonchor (Ave César, A Balada de Buster Scruggs) é o responsável pelo Design de Produção, mais uma vez realizando bom trabalho de ambientação de uma obra de época.

Dos departamentos técnicos do filme destacam-se o Figurino e a Trilha Sonora, podendo aparecer fortes nas premiações. Enquanto que o guarda-roupa montado por Jacqueline Durran (Anna Karenina, Desejo e Reparação, Orgulho e Preconceito) transmite toda a personalidade e sentimentos das personagens, a música de Alexandre Desplat (A Forma da Água, Ilha dos Cachorros, O Discurso do Rei) traz a emoção necessária para as cenas. Desplat possui um olhar especial para composições simpáticas, e aqui em Adoráveis Mulheres aproveita bem as oportunidades que tem para trazer frescor e leveza.


A grande potência de Adoráveis Mulheres, no entanto, é seu elenco. É um time de atrizes e atores raro de se ver. Alem do quarteto principal de jovens atrizes, temos nomes como Laura Dern, Chris Cooper, Bob Odenkirk, Timothée Chalamet, Tracy Letts, James Norton, Louis Garrel e… Meryl Streep. O equilíbrio entre o elenco jovem e o elenco mais experiente do longa é interessantíssimo. Impossível deixar de traçar paralelos entre as atrizes presentes no longa, que retomam a discussão entre mulheres do passado e do presente. Meryl Streep e Laura Dern, artistas de grande importância e referências da atuação, trocam cenas diretamente com esta nova geração que já detém tantas expectativas para o futuro do cinema. Destas, destaca-se Saoirse Ronan, que já possui um currículo rico e repleto de papéis complexos.

Saoirse Ronan é uma atriz polivalente e em Adoráveis Mulheres dá mais uma prova disto. Retomando sua parceria com Gerwig depois de Lady Bird, Ronan interpreta Jo March com muita competência, dando atenção a todos os diferentes movimentos da personagem. Jo é forte, determinada, sonhadora, sensível, ingênua, apaixonada, rancorosa… E passa por uma montanha-russa de acontecimentos. Ronan não só consegue dar conta de toda a carga dramática da personagem como, também, entrega tudo de forma única – sem repetir o que já fez em outros papéis. Isto é ainda mais louvável para uma atriz tão jovem.


No quarteto das irmãs March, a rivalidade entre Jo e Amy é um dos principais pilares da história. Logo, para não causar desequilíbrio e tornar esta dupla eficaz, era necessário escalar uma atriz que conseguisse ter o mesmo peso de Saoirse Ronan – e não me refiro a fama, mas a qualidade do trabalho. A escolha de Florence Pugh é pontual. Amy, por si só, também é uma personagem muito complexa, temperamental e imatura, mas muito forte e romântica. Sendo a mais jovem das irmãs, vai de criança a mulher ao decorrer da trama. Pugh constrói de forma crível a personagem, por mais que possa ser difícil suspender a descrença para não enxergar uma mulher adulta com maneirismos de criança. Dificilmente outras atrizes poderiam dar conta, na câmera, desta proposta.

A questão da passagem de tempo, aliás, é algo importante a ser notado ao olhar com atenção para as atuações do longa. Como já citado, apesar de dar elementos visuais e narrativos que constroem passado e presente dos personagens, Gerwig escolhe colocar grande parte da responsabilidade de orientar o espectador no elenco jovem. Por isso, a construção dos personagens nestas diferentes fases da vida é primordial para guiar o espectador entre as linhas temporais. A escalação se prova, também, esteticamente inteligente. Os atores e atrizes escolhidos tem perfil que facilmente enganam como adolescentes. Porém, quando adultos, muitos acabam não encontrando o peso necessário para demonstrar a maturidade adquirida e as questões da vida adulta. Watson, Scanlen e Chalamet acabam não explorando todas as possibilidades de construção de seus personagens tão bem quanto Ronan e Pugh. Ou, talvez sendo mais justo, a construção de Ronan e Pugh é tão bem realizada que acaba enfraquecendo a atuação mais contida de seus colegas de elenco.

Enfim…

Adoráveis Mulheres é uma adorável adaptação. A diretora e roteirista Greta Gerwig explora toda a leveza da obra de Louisa May Alcott, respeitando seu material original e extraindo um recorte repleto de doçura, sensibilidade e inteligência. Gerwig não abre mão de discutir nossa contemporaneidade, mas também não abre mão de contar a história. Gerwig sabe usar da ironia e da linguagem cinematográfica para expôr seus temas e evidenciar que esta obra escrita no século XIX tem muito a dizer para o público de hoje. Uma grande aula de como criar roteiros adaptados para o cinema.

Com a parceria de um elenco poderoso, em especial, do quarteto de jovens e promissoras atrizes – das quais se destacam Saoirse Ronan e Florence Pugh – Gerwig cria uma das obras mais repletas de feminilidade do ano. E uma das mais especiais. Gerwig, Alcott e Jo March, que durante o longa se espelham em diversos momentos, nos dão a oportunidade de olhar a arte de uma ótica que, cada vez, se torna menos rara. Há ainda muito a se conquistar quando falamos sobre igualdade no cinema, mas, graças a filmes como Adoráveis Mulheres e a participação ativa de artistas – como as que estão neste projeto – a indústria cinematográfica se torna cada vez mais justa e fértil. E com trabalhos únicos e prazerosos de assistir como Adoráveis Mulheres.

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