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Crítica – O Escândalo: Mulheres de direita se afastam do feminismo e ao mesmo tempo denunciam o assédio sexual

Em 1995 a empresa de comunicação News Corporation decide fundar um canal de notícias chamado Fox News. Então, Rupert Murdoch, CEO da News Corp, procura o executivo e consultor de mídia Roger Ailes para ser o fundador da nova estação de TV à cabo, nascendo o maior veículo conservador estadunidense. Após duas décadas da inauguração, uma das âncoras decide expor a cultura de assédio sexual nos bastidores da Fox News, acusando principalmente Ailes. As denúncias chocaram os Estados Unidos e fizeram parte do movimento #MeToo onde um número gigantesco de mulheres vieram à público denunciando casos de impertinência sexual. Quatro anos depois destes eventos o filme “O Escândalo” estreia contando a história da derrocada de um dos maiores nomes da televisão, tendo Jay Roach (Trumbo – Lista Negra) como diretor e as protagonistas Charlize Theron, Nicole Kidman e Margot Robbie.

Movimentos que expuseram casos de estupro e assédio em Hollywood são rotulados como feministas e essa ideia entra em colapso quando chega dentro do canal mais republicano dos Estados Unidos. Visto como uma pauta democrata/de esquerda, o feminismo é tratado como um monstro pelas personagens de “O Escândalo” que procuram se afastar da agenda que luta contra o sexismo ao mesmo tempo que denunciam objetificação e sexualização da mulher. Assim, a obra cria um retrato interessante da mulher direitista que se recusa fazer parte do movimento, por ser algo relacionado à esquerda, mas no fim do dia luta contra a opressão feminina e a favor da equidade de gênero dentro do corporativismo.

O longa é uma adaptação do livro “The Loudest Voice In The Room” escrito pelo jornalista norte-americano Gabriel Sherman a partir de uma série de reportagens publicadas pelo The New York Times. Charles Randolph, roteirista do filme, tentou de várias formas (várias, mesmo!!!) trazer a essência da publicação para a tela. Uma das primeiras técnicas é a quebra da quarta parede – quando o personagem conversa diretamente com o público – mas a tática acaba confundindo mais do que esclarece e se torna sendo esquecida por boa parte do filme. No início também é possível ver o uso de imagens de arquivo apresentando os personagens principais, mas após a introdução os registros não voltam a aparecer e a estética jornalística se perde junto com a identidade da obra.

A grande expectativa de “O Escândalo” fica no elenco estrelado. Theron, Robbie e Kidman estão presentes em praticamente toda a temporada de premiações concorrendo nas categorias de atuação. Mas a verdade é que as protagonistas conseguem cumprir seu papel na narrativa, mas não se destacam em nenhum momento. A ótima escolha de elenco permite que as atrizes se mantenham em uma zona de conforto e por isso, de primeira instância, celebramos suas – boas, mas não incríveis – interpretações.

Falando em Awards Season, a estrela do filme fica com o departamento de Cabelo e Maquiagem que vem varrendo todos os prêmios até agora: 4 vitórias em 7 indicações, sendo que as 3 premiações restantes ainda não aconteceram. A transformação mais chocante é a de John Lithgow como Roger Ailes, deixando o ator irreconhecível com diversas próteses sem comprometer sua entrega na atuação.

A queda de Ailes também foi contada pelo canal de televisão Showtime na série “The Loudest Voice” – ainda não lançada no Brasil. O programa rendeu um Globo de Ouro para Russel Crowe que interpreta o executivo. Ao contrário do filme, a série foca na ascensão do canal tendo seu primeiro episódio situado em 1995, quando a News Corp decidiu fundar a Fox News. Dando destaque aos envolvimentos políticos de Ailes e suas táticas para angariar audiência, “The Loudest Voice” é uma aula de comunicação moderna.

Em todos os formatos da mesma história a intenção é criar o perfil de Roger Ailes. Um homem conservador e com mania de perseguição, Ailes foi consultor de mídia durante as campanhas presidenciais de Richard Nixon, Ronald Reagan e George Bush e defendia o Partido Republicano sempre que podia – e ele sempre podia. Deixou o cargo de executivo na CBSN para criar junto com a família Murdoch a Fox News, canal que serve até hoje como plataforma de promoção republicana. Ailes é um dos responsáveis pela teoria de que Barack Obama não é norte-americano e criou a famosa tática de associar o ex-presidente estadunidense ao líder iraquiano Saddam Hussein, já que ambos dividem o mesmo sobrenome.

O título não poderia ser outro: o declínio de um dos mais influentes executivos da TV norte-americana foi realmente um escândalo. Diversas mulheres vieram à público e denunciaram assédio sexual (e moral) causando mudanças drásticas na cultura sexista não apenas na Fox News, mas na indústria televisiva como um todo. É uma pena que “O Escândalo” não conseguiu traduzir este acontecimento tão bem quanto suas versões da literatura e da televisão . De um jeito ou de outro, essa história precisa ser vista, lida e ouvida para que mulheres se sintam encorajadas a denunciar e para que homens possam aprender a questionar o comportamento abusivo dentro e fora do ambiente profissional.

“O Escândalo” estreia dia 16 de janeiro nos cinemas.

NOTA: 3,5/5

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