Crítica | Adoniran – Documentário expõe vida do poeta sambista

Moro em Jaçanã e se eu perder esse trem, que sai agora às onze horas, só amanhã de manhã…
Se você não conhece esse verso, lhe pergunto em que planeta vives? A música que faz parte do repertório do grande sambista Adoniran Barbosa é um clássico da música brasileira e fez sucesso até pela Europa. Para contar os bastidores dessa e de outras canções, além de apresentar um panorama da trajetória do músico, Pedro Serrano dirige seu segundo longa- metragem: “Adoniran – Meu Nome É João Rubinato”.

Pedro teve sua estreia no cinema em 2012 com “Luto em Luta”, documentário sobre as tragédias que acontecem no trânsito paulistano. Três anos depois, Serrano lança o curta metragem “Dá Licença De Contar”, que mais tarde seria a inspiração para sua última obra. O filme lançado em 2015 é baseado nas canções de Adoniran Barbosa, interpretado por Paulo Miklos. Em “Adoniran – Meu Nome É João Rubinato” explorar mais da carreira de Barbosa, com os depoimentos de amigos, familiares e imagens de arquivo.

Com sua gravata borboleta, seu clássico chapéu fedora e o vocabulário caipira, Adoniran poderia ser só mais um senhor vagando pela Rua Santo Antônio no Bixiga. Mas não havia nada de regular naquele homem. Um dos maiores compositores brasileiros é retratado como gênio, quando compõe belas canções e é visto como um moço ordinário, que não renunciava ao whiskey, sonecas e de sua esposa.

Nunca se falou tanto em separar a pessoa do artista. Perdoar, esquecer, “passar pano” é algo que o público está disposto a fazer por grandes artistas. Fico imaginado como esse público receberia a trajetória de Adoniran, artista que já se pintou de preto para interpretar negros na televisão ou de vez em quando ecoava um discurso machista. A verdade é que – infelizmente – por mais progressista que seja, Adoniran ainda é uma vítima de seu tempo e isso não o impede de ter feito escolhas que seriam consideradas errôneas nos dias de hoje. Por isso a preferência em mostrar, mas não explicar. Quem for assistir “Adoniran – Meu Nome É João Rubinato” precisa ir de peito aberto para entender que o músico foi uma figura que viveu nos meados do século vinte.

É lindo como o documentário revisita a cidade de São Paulo a partir do olhar de Adoniran Barbosa. O centro da capital paulista era praticamente o seu quintal de casa, além de ser sua grande musa inspiradora. Em suas canções Adoniran retrata a metrópole a usando como cenário para histórias vividas com seus amigos. Imagens de São Paulo não só auxiliam na ilustração da obra, como também auxilia na explicação de algumas de suas faixas, como é o caso de “Samba do Ernesto” e “Saudosa Maloca”.

Uma pena ver que o desejo de Adoniran de ter uma cidade restaurada e sem miséria ainda não se realizou. Aliás, pouca coisa mudou efetivamente desde o século passado. A falta de habitação para a população, a bela arquitetura abandonada e a segregação de gêneros musicais periféricos ainda fazem parte da cultura dessa cidade. Agora discutimos a legitimação do funk como música e dos bailes como eventos culturais, o que não era muito diferente com a roda de samba no passado. O filme mostra Adoniran Barbosa queixar-se da segregação de sua obra e da luta para se tornar um artista respeitado. O personagem criado por João Rubinato, era um homem simples, populista e que não sabia o português formal e isso já era o suficiente para a sociedade paulistana invalidar o músico. Hoje, o sambista é tratado como lenda e ícone cultural.

A música pop não é erudita, não é clássica e não pertence às regras acadêmicas. A música pop é feita de intuição e Adoniran Barbosa era um grande intuitivo como o dom da poesia.

“Adoniran – Meu Nome é João Rubinato” estreia dia 23 de janeiro nos cinemas.

NOTA: 4/5

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