Cinema Crítica

CRÍTICA | Cicatrizes – Drama sérvio expõe drama de famílias com bebês sequestrados

Na 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que aconteceu em outubro de 2019, muitos cineastas estrangeiros tiveram a oportunidade de expor filmes em solos brasileiros. Muitos deles não chegam a voltar para uma estreia comercial, mas não é o caso de “Cicatrizes”, longa-metragem dirigido por Miroslav Terzić sobre uma família sérvia que acredita que um dos seus filhos foi sequestrado logo ao nascer.

Em 2015, a Associação dos Pais dos Bebês Desaparecidos da Sérvia estimou cerca de 40 mil crianças roubadas de suas famílias após o parto. O tráfico de recém-nascidos é um problema ainda existente na Sérvia, e o país conta com diversas entidades que lutam por leis melhores, se empenham nas buscas de crianças e acolhem famílias que foram vítimas dessa atrocidade. O crime envolve médicos, enfermeiras e até centros sociais. Logo no nascimento do bebê, os funcionários do hospital avisam aos pais que o filho já nasceu morto e então somem com o recém-nascido; em alguns casos, a enfermeira mostra um suposto bebê falecido – que fora mantido em uma câmara frigorifica – com a intenção de enganar pais e mães.

O enredo de “Cicatrizes” até pode parecer história de telenovela, mas as escolhas de Terzic enfeitam e transformam o filme em uma obra mais sofisticada. Com um ritmo desacelerado, a consumação do filme não se torna praticável para um público ordinário, porém se torna uma agradável surpresa para o espectador com olhar mais treinado. O toque sutil da montagem combinada com decisões felizes de enquadramento eleva a qualidade artística satisfazendo cinéfilos com um repertório eminente.

Muito mais do que um filme sobre sequestro, “Cicatrizes” é sobre seguir em frente. O roubo de um recém-nascido distribui traumas que desencadeia e atinge todos os envolvidos presentes em um curto raio de distância. A mãe inconformada, a filha que se sente rejeitada e o pai reprimido se prendem em uma rede de tortura até que alguém consegue dar um passo maior em busca da verdade. A partir daí, todos esperam e se empenham em uma dramática aventura em busca do filho perdido.

A atriz Snezana Bogdanovic domina o roteiro e entrega uma interpretação carregada de ressentimento em suas poucas falas. Com uma linguagem corporal verborrágica é possível sentir a dor da personagem Ana durante a procura de seu filho. O elenco coadjuvante colabora no alto nível de atuação e auxiliam o trabalho Bogdanovic, evidentemente protagonista da história.

O cinema não é feito de boas histórias. É feito de bons contadores de história. Miroslav Terzić soube elevar o patamar de sua obra com um enredo tocante em um filme com estética e ritmo requintado. Tudo faz sentido em suas decisões e o resultado é primoroso. Não só me encanto com a arte, mas acabo descobrindo e aprendendo mais sobre algo tão relevante na Sérvia. É o cinema cumprindo sua missão da forma mais genuína.

“Cicatrizes estreia dia 16 de fevereiro nos cinemas.

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