Cinema Crítica

Crítica | Fim de Festa – O cinema recifense retrata um Brasil excessivo através do carnaval

Essa vida de colunista de cinema nos rende momentos inesquecíveis. Na tarde desta terça-feira (03/03) vivi um deles. Entrevistei um dos meus cineastas (e roteiristas) favoritos: Hilton Lacerda. Conhecido principalmente por ter dirigido “Tatuagem”, longa lançado em 2013, Hilton é caracterizado como ícone do cinema recifense, movimento artístico de forte expressão no Brasil. Nesta entrevista conversamos sobre seu mais novo longa-metragem, “Fim de Festa”. O filme conta a história de um assassinato durante o carnaval em Recife.

Emma é francesa e casada com um brasileiro que vive com sua família na França. Ao vir para o Brasil conhecer o carnaval, é assassinada em um crime misterioso. Quem tenta desvendar o crime é o policial Breno, interpretado por Irandhir Santos, que já trabalhou diversas vezes com Hilton e agora está no ar como o vilão Álvaro de “Amor de Mãe”, novela do horário nobre da Rede Globo.

Pergunto para Hilton sobre a parceria com Santos, companheiro de trabalho desde 2006 quando filmaram “Baixo das Bestas”, e desde então dividiram o set diversas vezes. Ao ator é só elogios. A habilidade “camaleônica” do astro faz com que o diretor o considere para seus filmes: “Eu o vejo como um corpo em movimento e isso me interessa bastante. Eu não escrevo papel pensando em Irandhir, eu escrevo o papel pensando no seu corpo como o personagem”. Também tive a oportunidade de conversar com Irandhir Santos que retribuiu o enaltecimento: “Hilton me ensina a vivenciar melhor minha arte e ao mesmo tempo me ensina a compreender melhor o lindo”.

O policial Breno é um personagem esfíngico que além de resolver crimes, precisa redescobrir sua própria personalidade. Apesar da profissão militarizada, Breno foge do estereótipo da polícia perpetuado pelo cinema. Na companhia de seu filho, Breninho, o cara fuma maconha e questiona a validade de seu trabalho quando se vê prendendo jovens negros periféricos. Para Irandhir, a profissão do protagonista representa uma máscara sufocante e não o retrata de fato.

“Ele é carne de carnaval. Ele brincou muito de carnaval e agora não brinca mais.”

– Irandhir Santos sobre seu personagem Breno

Além de um elenco consagrado com Irandhir e Hermila Guedes (O Céu de Suely), “Fim de Festa” apresenta um núcleo jovem com Gustavo Patriota, Amanda Beça, Safira Moreira e Leandro Vila. A química entre todos os atores e atrizes flui e então questiono Irandhir sobre a experiência de estar em cena com a moçada. A resposta do ator revela que essa vivência traz um frescor e o motiva a retornar em seu estágio inicial: “eu tenho de ser assim, todas as vezes”.

“É um momento que não se tem amarras, é um momento que não se cria expectativa, é o momento em que você tem o direito de errar, se você quiser!”

– Irandhir Santos sobre atuar com elenco iniciante

A galera com menos experiência foi responsável por transcrever uma guerra civil entre a juventude atual. Breninho e Penha representam uma burguesia meia consciente, pregadores do amor livre, da descriminalização da maconha e que desejam um carnaval por mês. Já Angelo e Indira, negros retintos, filhos de domésticas e libertos de qualquer possível amarra, ajudam a ilustrar uma juventude que se divide em discurso e execução. Em alguns momentos conseguimos até identificar uma tiração de sarro do jovem burguês branco e Hilton confirma a intenção. A exposição de excesso e falta de privilégios foi proposital e com a genialidade do pernambucano, entendemos as diferenças mesmo quando tudo parece igual.

“Eles se acham bacana. Mas na prática não conseguem ser…”

– Hilton Lacerda sobre a juventude burguesa retratada

O trunfo de ter o carnaval como plano de fundo é poder utilizar um imagético que junta ma estética folclórica brasileira com corpos renascentistas. A liberdade da nudez e o sexo sempre foram presentes na obra de Hilton. Como o título já diz, “Fim de Festa” retrata um carnaval que já não existe mais, o que auxilia na construção de um repertório de metáforas.

“Eu estou falando de uma coisa muito maios. O carnaval está ali de imediato, mas estou falando de uma coisa maior, de um país que vivi de excessos”.

– Hilton Lacerda sobre as metáforas presentes em ‘Fim de Festa’

A ALICE

Suzy Lopes (Bacurau) também integra o elenco de “Fim de Festa”. A atriz interpreta Alice, a sogra da falecida, uma mulher cheia de excessos e que deixou o Brasil para morar em Paris. Alice é a representação perfeita da classe média brasileira e a atuação de Suzy enobrece a personagem. “Eu me fascinei por Alice pelo esforço de criar uma pessoa em outro lugar. Eu não julgo as minhas personagens, eu as vivo” é a fala de Lopes sobre as características do papel interpretado. O esforço é de transformar uma fascitóide em alguém relacionável e divertida e Suzy Lopes consegue esbanjando talento sendo bem sucedida em seu propósito.

Mais uma obra com assinatura de Hilton Lacerda encanta e se camufla na história do cinema brasileiro. O movimento recifense se destaca no portfólio nacional com suas cores, corpos e sotaques e “Fim de Festa” não ficaria fora dessa.

“Fim de Festa” estreia 05 de março nos cinemas.

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