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REVIEW | Hollywood – Nova série de Ryan Murphy expurga sentimentos em época de quarentena

Eu lembro a primeira vez que fui introduzido à Patti LuPone. Eu tinha 13 anos e a vi por cerca de 200 segundos no último episódio da segunda temporada de “Glee”. New Directions estava em Nova Iorque para o Campeonato Nacional de Corais Estudantis e a protagonista Rachel Berry, interpretada por Lea Michele, avista LuPone no Sardi’s – icônico restaurante nova iorquino. Nesta altura, esta série já teria mudado tanto minha vida, ao apresentar Patti, Liza, Barbra…, mas o mais importante seria a oferta da oportunidade em assistir o processo de aceitação de um adolescente gay igual a mim Acompanhar a história de Kurt Hummel, personagem de Chris Colfer, foi o que deu forças ao pequeno eu. Um sopro de crença em uma possível e potencial vida ordinária. “Glee” foi criada por Ryan Murphy. Ryan é responsável indireto por uma revolução no cenário televisio atual. A forma como seus shows retrataram o adolescente queer do século XXI ensinou a importância da representatividade na TV e no Cinema. Uma década depois, Ryan dá um passo adiante em um movimento corajoso: em “Hollywood”, a nova série original da Netflix, o showrunner reescreve a história da indústria cinematográfica, a transformando mais inclusiva desde a década de 40.

Cory Monteith, Lea Michele e Patti LuPone no set de Glee

Em “Hollywood” Patti interpreta Avis Amberg, esposa do dono de um estúdio de cinema em Los Angeles. Após seu marido ter problemas de saúde, Avis assume a empresa e dá início ao um projeto ousado para a época: um filme escrito e protagonizados por artistas pretos. Além de brincar com a realidade, a série parece homenagear profissionais que colocam sua carreira em risco ao decidir ir contra as regras de um mercado que tanto segrega.

Com um papel escrito para ele, Darren Criss, outra estrela de Glee, interpreta Raymond Ainsley, sua própria versão de Ryan, um diretor focado na transformação social através das artes. O ator faz parte de um elenco bem selecionado: Dylan McDermott como Ernie inspirado em Clark Gable, a sensacional Holland Taylor no papel de Ellen Kincaid e os jovens Laura Harrier e Jeremy Pope, respectivamente Archie e Camille, que nos encantam com beleza e talento. Uma pena que nem todo mundo imprime bem em cena. Os “galãs” David Corenswet e Jake Picking não oferecem nada além de uma beleza gregoriana, se limitando ao ofício de serem sexualmente atraentes.

Darren Criss, Jeremy Pope, Davie Corenswet e Jake Picking

A série cria um jogo entre ficção e realidade. Um dos pontos altos da série é a participação de Queen Latifah como Hattie McDaniel, a primeira atriz negra ganhadora de um Oscar em 1940. A personagem de Latifah emociona e serve como uma depuração de mágoas. Os diálogos e as ações de McDaniel em “Hollywood” surgem como um desabafo, uma reação aos muitos anos de um apartheid artístico. Quem também tem sua redenção nessa brincadeira foi Rock Hudson, papel de Jake Picking, que pode viver um romance sexual sem se esconder. Assim como no programa, Hudson foi um ator que teve sua sexualidade exposta pela mídia.

Quem merece um destaque especial neste texto é Jim Parson, popularmente conhecido como Sheldon de “The Big Bang Theory”. O ator interpreta Henry Wilson, um agente de astros e estrelas hollywoodianas. Wilson também existiu no mundo real e comanda um dos caminhos mais interessantes no roteiro de “Hollywood”. O personagem de Parsons parece ter sido inspirado pelos assediadores expostos por movimentos como Time’s Up e Me Too se tornando uma versão homossexual desses canalhas. No programa, Henry coagia seus clientes a manterem relação sexual com ele em troca de trabalho. A ótica gay em cima do assédio sexual (e moral) também tem sua importância pois não só caracteriza atitudes repulsivas, mas nos faz encarar a realidade como uma forma legítima de viver sua orientação sexual em uma época de repressão sexual, principalmente em relacionamentos homoafetivos.

Jim Parsons e Queen Latifah

Outro movimento ousado em “Hollywood” é a desconstrução do que conhecemos como vilania. Aqui o antagonista não é a loira magrela e nem a velha amargurada. Como na realidade, na série, o verdadeiro vilão é o patriarcado e quem se beneficia deste sistema. Não há espaço para a rivalidade feminina ou qualquer outro clichê utilizado de forma tão exagerada nos últimos anos a ponte de ser factível.

A crítica especializada pode até ter caído de pau em cima de “Hollywood”. Convenhamos que a série falha nas motivações secundárias e exibe um discurso redundante na tentativa de igualar seu público por baixo. Nada disso compromete a narrativa ou impede o ganho de força ao longo dos sete episódios, tendo um dos finais mais emocionante dos últimos tempos da televisão norte-americana. A série original da Netflix é catártica e ajudo o espectador no expurgo de todas os sentimentos e emoções deste momento tão difícil que vivemos por causa da pandemia do covid-19.

“Hollywood” está disponível no catálogo da Netflix.

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