Especial Música

O que a mudança de nome da categoria “urban”, no Grammy Awards, significa?

Nesta semana, o Grammy Awards divulgou que fará algumas mudanças em suas categorias. Além de estabelecer que os indicados a “Melhor Artista Novo” possam ter mais de 30 faixas lançadas, e mudar o nome da categoria “Melhor Performance de Rap/Sung” para “Melhor Performance de Rap Melódico”, a Academia também alterou a categoria “Melhor Álbum de Urban Contemporâneo” para “Melhor Álbum De R&B Progressivo”. Esta última mudança em especial levanta uma importante questão e merece uma maior atenção.

Adicionada à premiação em 2012, tendo Frank Ocean como seu primeiro vencedor na edição de 2013, com o álbum “Channel Orange”, a categoria representa, na verdade, uma forma de racismo. Isso porque o termo “urban” é usado para referir-se especificamente à black music – inclusive no próprio mercado musical. Na premiação, a categoria reúne majoritariamente artistas negros, apesar da diversidade de estilos musicais.

Na edição deste ano, por exemplo, que ocorreu em 26 de janeiro, a cantora Lizzo foi indicada a “Melhor Performance Pop Solo”, com o single “Truth Hurts”, e, ao mesmo tempo, seu álbum, “Cuz I Love You”, foi nomeado para “Melhor Álbum de Urban Contemporâneo”. É contraditório a cantora ter seu single indicado à categoria pop mas seu álbum a outra. 

Tal fato se reforça ainda mais ao analisar-se os vencedores passados da categoria, como Rihanna com o álbum “Unapologetic” (2014), Beyoncé, com “Lemonade” (2016) e The Weeknd com “Starboy” (2017).

A premiação tem um histórico de 8 anos em colocar artistas negros competindo entre si pela categoria, quando poderiam estar disputando as grandes categorias ao lado de brancos. Quando questionados a respeito, o Grammy deu a justificativa de que são incluídos na categoria todos os estilos que derivam do R&B ou têm influências no hip hop, rap e grime – apesar de serem gêneros cada vez mais expoentes e populares na indústria musical. 

Reforçando críticas que acontecem há anos, tanto de artistas quanto produtores, o rapper Tyler, the Creator questionou a categoria em seu discurso na última edição do Grammy, após ganhar o prêmio de “Melhor Álbum de Rap”: “É péssimo que sempre que nós, e eu quero dizer caras que se parecem comigo, fazemos alguma coisa que transcende gêneros ou coisa assim, eles sempre colocam em alguma categoria urbana ou de rap. Eu não gosto dessa palavra ‘urbana’. Pra mim, é só uma forma politicamente correta de dizer a palavra com ‘n’ [em referência a ‘nigga’, termo em inglês racista quando usado por não-negros]”.

Como percebeu o jornalista Kehinde Andrews em seu artigo publicado no The Guardian, isso não é uma coincidência. Durante os anos 70, o locutor Frankie Crocker criou a categoria “urban contemporary”, para se referir a uma mistura de R&B e Jazz. Com o passar do tempo, o gênero passou a incorporar outras sonoridades afro-americanas, como o disco, hip hop, soul e grimes. A partir daí surgiu a “urban music”. No entanto, ainda segundo Andrews e o sociólogo Elijah Anderson, o termo acaba por apagar a diversidade das vivências negras e reforça um estereótipo racial já que, apesar de partirem das raízes no reggae jamaicano e no blues do sul dos vilarejos africanos, cada estilo apresenta características próprias.

Ao comentar sobre a atitude, o CEO da Recording Academy, Harvey Mason Jr, reforçou a preocupação que a Academia tem em fazer mudanças necessárias e que reflitam o momento atual. E não é por acaso que o acontecimento veio bem em meio à onda dos protestos antirracistas que tomaram conta de diversos países do mundo por conta da comunidade Black Lives Matter (Vidas Negras Importam, em português), que teve um estopim após o assassinato de George Floyd por policiais militares brancos em Minneapolis, nos Estados Unidos.

Em solidariedade ao movimento, diversas gravadoras norte-americanas e empresas do ramo musical (como Spotify e Deezer) realizaram na última semana (2) a BlackOut Tuesday, ação que promovia uma espécie de “apagão” com o objetivo de suspender todas as suas atividades durante um dia inteiro para compartilhar exclusivamente notícias e novas informações relacionadas ao caso Floyd. Ainda na mesma semana, a gravadora Republic Records divulgou em comunicado que não iria mais usar o termo “urban” para se referir a artistas negros de seu catálogo, encorajando outras gravadoras a fazerem o mesmo. 

Apesar dessas importantes conquistas, é válido ressaltar que a renomeação da categoria não representa mudanças muito significativas, tendo em vista que continuará a considerar artistas que tenham elementos mais progressivos de R&B, hip hop, rap, dance, música eletrônica, pop, euro-pop, country, rock, folk e alternativo. Além disso, o termo “urban” continua presente nas categorias latinas da premiação, dividindo-se em “Melhor Álbum Latino de Pop ou Urban” e “Melhor Álbum Latino de Rock ou Música Alternativa”.

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