Música O Papo É Pop

O PAPO É POP | Beyoncé, Black Is King e a redefinição cultural (Parte 1)

O termo ‘cultural reset’ significa em tradução livre redefinição cultural e surgiu na internet no fim de 2019 quando um admirador da cantora nova-iorquina Carolina Polachek publicou em seu twitter um trecho da música “So Hot You’re Hurting My Feelings”, sugerindo que a canção havia sido um marco na indústria musical. Desde então, a Twitosfera transformou a frase em um meme e vêm definindo seus momentos favoritos como imprescindível para a manutenção da cultura popular. Apesar da banalização, é possível contar com a palma de uma mão quantos artistas realmente conseguiram destruir os pilares tradicionais do pop e reconstruí-los à sua própria maneira.

Repopularizando álbuns visuais, inovando em marketing e até sendo pioneira em viralização na Internet, Beyoncé impactou a indústria musical e audiovisual como nenhum outro ato. Dispensando apresentações, Beyoncé Knowles é uma cantora nascida em Houston, Texas e teve sua carreira ascendendo na década de 90 quando ainda fazia parte da girl group Destiny’s Child. Tendo conquistado artistas como Michael Jackson, Diana Ross e Tina Turner, no início dos anos 2000 a texana se aventurou na carreira solo, fincando seu nome eternamente na história da indústria fonográfica.

Assim como Beyoncé está para a geração atual, quase 60 anos atrás, The Beatles chacoalhavam o mundo e mudavam permanentemente o rumo do universo musical. No ano de 1964, a banda inglesa lançava “A Hard Day’s Night”, o primeiro álbum visual da história, prática que seria seguida nos próximos anos por David Bowie, Michael Jackson, The Doors e… Beyoncé. Exatos 41 anos após o grupo de John e Paul enlouquecerem as beatlesmaniacs, Beyoncé traz para seus fãs o “B’Day Anthology Video Album”, primeiro álbum visual em DVD trazendo dezenas de videoclipes que ilustram as faixas do seu segundo trabalho solo “B’Day”. O formato pode não ter sido novidade para os mais velhos, mas Beyoncé marcou uma geração com a ousadia em lançar 13 videoclipes de uma única vez.

Beyoncé em “Kitty Kat”, vídeo que faz parte do seu primeiro álbum visual

Em 2008, vivíamos o auge para música pop com o surgimento do maior time de divas pop que a cultura pop já viu. Britney Spears estava de volta emplacando hits na rádio, Rihanna estava colhendo os primeiros frutos do seu sucesso, Katy Perry estava estourando com a aprovação de Madonna e Lady Gaga estava desestabilizando os fãs do gênero com sua esquisitice. Apesar de tanta força feminina, o maior feito da época foi realizado por Beyoncé ao ter o primeiro vídeo musical viralizando na world wide web. Tendo Queen B e duas dançarinas de collant preto em um estúdio de fundo infinito, Single Ladies ressignificou o lançamento de videoclipes no século XXI, fazendo com que suas colegas elevassem o nível de seus trabalhos. Com uma coreografia inspirada em Gwen Verdon, a maior estrela da história da Broadway, o vídeo foi disseminado ao redor do globo ganhando versões e paródias realizadas por astros da música como Justin Timberlake, sensações teen como Jonas Brothers, pela série norte-americana “Glee” e até por programas televisivos brasileiros. Essa era Beyoncé amplificando o patamar mais uma vez.

Clipe de “Single Ladies”

Beyoncé teve um desempenho comercial invejável com “I Am… Sasha Fierce”, seu terceiro álbum de estúdio onde performava como um alter-ego – prática que seria usada anos depois por Lady Gaga, Nicki Minaj e até Madonna. Os próximos passos da carreira estavam sendo meticulosamente observados por admirados e pela mídia. Em cima de tanta pressão, Bey lança “4”, trabalho com um forte posicionamento mirado no R&B, a afastando do pop, gênero que havia marcado seus últimos anos de carreira solo. O novo estilo não agradou o público e a cantora teve que lidar com seu primeiro fracasso enquanto estava grávida de sua primogênita. A mídia já anunciava o fim da carreira de Beyoncé, que mesmo não vendendo cd’s, estava lotando estádios ao redor do mundo, inclusive no Brasil quando foi atração principal no Rock in Rio 2013. Algumas semanas depois de surpreender os brasileiros dançando funk carioca no Palco Mundo, o mundo inteiro acorda com uma notícia inesperada: “Beyoncé lançou um álbum surpresa COM 17 VÍDEOS MUSICAIS”. O álbum que leva o nome da cantora conta com colaborações de Sia, Timberlake, Drake e seu marido Jay-Z. O projeto foi aclamado pela crítica especializada e teve uma ótima recepção de público além de render à Beyoncé convite para estrelar o Show do Intervalo no Super Bowl e o Vanguard Award, prêmio da MTV oferecido por artistas que contribuíram para o crescimento da indústria de videoclipes. O “Beyoncé” é a definição de ‘cultural reset’ reestruturando a linguagem, a estética e o marketing por trás da música.

Do fracasso ao sucesso absoluto, restava a Beyoncé apenas manter o legado que já havia construído. Depois de se firmar como feminista, chegou a hora de comprar outra briga, dessa vez muito mais pesada. Em maio de 2014, gravações de uma câmera de segurança de um elevador foram vazadas e no conteúdo era possível ver Solange Knowles, irmã de Beyoncé, irada agredindo Jay-Z. Muito se especulou mas a resposta sobre a briga veio dois anos depois quando Beyoncé lança “Lemonade” e expõe uma possível traição de seu marido através de canções e clipes que traduzem a solidão e o sofrimento da mulher negra e seu deterioramento ao olhos masculinos em relação às mulheres brancas.

“Lemonade”, sexto álbum de Beyoncé

Mais uma vez história está sendo feita pelas mãos da esposa de Jay-Z. Começando pelo lead single “Formation”, a era “Lemonade” traz o empoderamento negro e causa um alvoroço em admiradores e odiadores de Beyoncé que não esperavam que seu novo projeto fosse denunciar a violência contra o povo preto. Mesmo com ameaças de boicote por parte de norte-americanos conservadores, “Lemonade” se torna um marco na indústria e vira referência cultural para o feminismo negro.

Performance de Beyoncé no Coachella

Depois do lançamento de “Lemonade”, Beyoncé faz um novo anúncio que choca o mundo: em 2017 a cantora anuncia que estava grávida de gêmeos. Em meio a muitas celebrações, uma notícia decepciona uma parcela de fãs; por causa da gravidez, Queen B não poderia mais se apresentar no festival californiano “Coachella”, sendo então substituída por Lady Gaga. Um ano se passou e finalmente Beyoncé pôde performar no evento e obviamente, mais uma vez, fez história. O show que ficou conhecido na época como Beychella (Beyoncé + Coachella) foi transmitido para o mundo todo, tendo seus figurinos e coreografias reproduzidos por fãs de vários países. O conceito por trás da apresentação era a representação de universidades historicamente negras, com um elenco cem por cento afro-americano, seguindo estética de bandas de fanfarras e líderes de torcida. A performance rendeu o documentário “Homecoming”, disponível no catálogo da Netflix, que mostra a trajetória de Beyoncé até o palco do Coachella.

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