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O rajadão é pop: a evolução da música popular brasileira (Parte 1)

Do Spotify ao Itunes, os aplicativos de música fervem com as canções de artistas de todos os cantos do planeta. A indústria musical nunca foi tão rica, movimentando bilhões de dólares anualmente mesmo em tempos de pandemia. Nesse contexto, os artistas brasileiros têm se destacado bastante, dentro e fora do país, embora saibamos que os investimentos na cultura por parte do governo nunca foram tão escassos e limitados por conta de ideologias excludentes.

Para se ter uma ideia, hoje, a drag queen maranhense Pabllo Vittar se tornou a primeira artista drag a atingir mais de 1 bilhão de reproduções no Spotify, batendo inúmeros artistas populares voltados para o público LGBTQIA+ no cenário musical, como a pioneira RuPaul Charles, drag queen norte-americana mais conhecida por apresentar o reality show Rupaul’s Drag Race e por ter, também, uma carreira na indústria fonográfica. 

Se hoje podemos afirmar que temos um cenário pop nacional sólido, vide os números acumulados por artistas como a própria Pabllo ou por outras cantoras pop como Anitta, Ludmilla, Iza e Luísa Sonza, é preciso reconhecer e valorizar o fato de que esse caminho foi trilhado, inicialmente, por artistas cujas carreiras atingiram a longevidade de mais de 50 anos e que lançaram (ou copiaram) tendências em seu auge no mercado fonográfico nacional, atingindo até grande mesmo uma popularidade em outros países da América Latina.

A partir desta semana, o Premiere Line convida você a embarcar em uma viagem pela história da música pop brasileira, desde a explosão do pop nacional na década de 1960 à sua estagnação no início dos anos de 1990. Vamos entender de que modo os valores sociais influenciaram as letras, as melodias e as atuações de nomes que marcaram gerações e que abriram portas para cantores e cantoras que estão estourados nas rádios do Brasil.

A jovem guarda

Com a explosão do pop meloso e chiclete propagado globalmente pela banda The Beatles, criada em 1960, o mundo inteiro viu o surgimento de uma das primeiras boy bands voltadas para um som pop com apelo mais comercial. Batidas grudentas, letras apaixonadas e visual padronizado levaram os membros do grupo musical direto para os pôsteres pendurados nas paredes de moças jovens em todo o mundo. Surgiu aí, também, uma nova atitude frente à sociedade com a popularização das guitarras elétricas, carros potentes, cores, cortes de cabelo e roupas que destoavam da década anterior. Tudo isso foi fisgado pelos empresários da época e levado ao ar no programa televisivo “Jovem Guarda”, exibido pela TV Record, e que figurou nas telinhas brasileiras entre 1965 e 1968. Na apresentação, um trio que entrou para a história, os cantores Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa.

O programa da Jovem Guarda apresentou e ajudou a popularizar artistas como Leno e Lílian, Martinha, Renato e seus blue caps, Jerry Adriani dentre outros, de modo que esses intérpretes conquistaram inúmeros discos de ouro em um curto espaço de tempo. Alguns, como a cantora Martinha, terminaram por se dedicar mais à composição de alguns clássicos da MPB, como “Eu Daria a Minha Vida”, popularizada na voz de Roberto Carlos.

Algumas das canções, apesar de inspiradas, não eram exatamente originais, visto que muitas eram versões (nem sempre muito primorosas em termos de letra) de canções em inglês que estouraram anteriormente nas rádios tupiniquins. Mesmo as canções originais apresentavam o mesmo princípio dos hits internacionais, os quais eram estruturados com refrões extremamente chiclete e que eram ancorados em rimas mais simples e melodiosas, o que facilitava a memorização dos ouvintes. Um grande exemplo é a bela canção “Pobre Menina”, do dueto Leno e Lilian, que é uma versão da canção Hang On Sloopy, da boy band  norte-americana The McCoys:

É importante mencionar que em meio a esse grupo de artistas, o carisma e a voz de Roberto Carlos o levaram a ter um programa solo e a conquistar suspiros apaixonados de milhões de moças brasileiras, o que foi essencial para que ele pudesse se manter em relevância até hoje (para a alegria ou desespero de alguns).

Apesar de todo o sucesso vivenciado pela turma da Jovem Guarda na década de 1960, a alegria e as letras melosas não seriam suficientes para manter o sucesso de alguns desses artistas por muito tempo. Com o início dos anos de 1970 a atitude do jovem, outrora doce, apaixonado e levemente rebelde, deu lugar a uma postura mais desconstruída, natural e combativa cuja trilha sonora envolvia canções folk e faixas agitadas da disco music.

A disco music, popular até os dias de hoje, começava a surgir nos Estados Unidos em discotecas voltadas para públicos negros, latinos e LGBTQI+ e o movimento hippie, por sua vez,havia começado a popularizar uma ideologia de vida mais voltada para a consciência ambiental e política. Foi aí que houve o ápice de dois importantes ideais: o carpe diem (aproveite o dia e as pequenas coisas)e o fugere urbem (fuga do meio urbano). Esse terremoto cultural levou ao inevitável declínio de determinados estilos musicais e de figuras que passaram a ser consideradas ultrapassadas, todos soterrados por uma avalanche de lantejoulas, saltos plataforma, roupas coladas e globos luminosos de boate. 

Continua…

Imagem: Julia Mancilha/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

Laurenci Esteves Ver tudo

Escritor, professor e gaymer. Leonino apaixonado por cultura pop e por chocolate. Instagram: @quatryx

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