30 de março de 2010. O relógio estava perto da meia-noite quando Marcelo Dourado foi eleito o vencedor da edição do Big Brother Brasil daquele ano. Dourado, que na época era lutador de MMA, soltou durante sua permanência na casa mais vigiada do país diversas frases afirmando e reafirmando posicionamentos intolerantes e homofóbicos, inclusive dizendo que “heterossexuais não pegam AIDS”. 11 anos depois da vitória, o ex-bbb se declara em suas redes sociais como “defensor de diretos individuais” e promete processar legalmente qualquer um que o chame de homofóbico na internet.

No início da década passada, o termo “cancelamento” ainda não protagonizava discussões calorosas na internet, mas o ato de cancelar é milenar. Na Grécia Antiga, no início da tão aclamada democracia, existia o “ostracismo”, o ato de afastar da sociedade por 10 anos qualquer cidadão acusado de tramar um ataque contra o regime democrático. Os gregos se reuniam em assembleias com milhares de pessoas que eram responsáveis em decidir o futuro do condenado. Muito parecido né?

Voltando a falar de Big Brother, na edição 2021 surgiu um personagem muito interessante. A rapper Karol Conká surpreendeu quando foi anunciada como participante do reality show. Com músicas que reforçam a força e a beleza da mulher negra, era de se esperar que a artista entrasse pro hall de fadas sensatas do programa, e fizesse companhia para as sisters da edição passada, que difundiram o termo, já conhecido na internet, em nível nacional. Se o que imaginávamos que Conká faria era dar aula sobre questões raciais e desse continuidade na tocha da sororidade, acendida no ano anterior, o que foi entregue foi totalmente o oposto. Durante as quatro semanas que permaneceu no jogo, Karol cometeu abuso moral e psicológico com os participantes Lucas, Arcrebiano, Gil, Carla e Juliette, causando indignação nos espectadores que terminou num ostracismo do BBB e da sociedade.

Aqui fora, Karol Conká recebeu uma rejeição nunca enfrentada antes na história do programa. Além de bater o recorde mundial de maior porcentagem de votos em uma eliminação da franquia Big Brother, a artista foi hostilizada na internet de forma titânica, como ninguém havia recebido antes. Nem Dourado, nem Patrícia (a antiga detentora do título de maior rejeita do BBB) e nem outro participante desta edição. O racismo, misoginia e homofobia de outros brothers e Sisters podem até ter causado eliminação, mas nenhum ocasionou tanto ódio pelo participante como ocorreu com a Karol.

A raiva desproporcional pela Karol Conká virou tema do documentário “A Vida Depois do Tombo” produzido pela Globoplay. Bom, documentário é uma palavra forte, mas a reportagem dividida em 4 capítulos está disponível na plataforma de streaming da emissora global e tem como objetivo mostrar a forma como a artista encarou a repulsa pós BBB. O receio de estar em lugares públicos, a necessidade de desmentir notícias falsas e os ataques à sua família constroem a narrativa da série que serve para “limpar a barra” da cancelada.

É uma pena que uma artista que tanto contribui para a cultura brasileira, que serviu como representatividade para jovens pretas e se tornou nome forte da luta contra sexismo e racismo seja reduzida por sua conduta durante quatro semanas. São anos batalhando na construção de uma carreira, mas em dias é possível desvalidar todas as conquistas. E o documentário roteirizado e dirigido por mulheres brancas se preocupa em ilustrar as consequências que Karol Conká enfrentou após atitudes condenáveis, mas peca em isolar os acontecimentos, empobrecendo o alcance que essa discussão poderia chegar. A série desperdiça conteúdo ao colocar uma lupa na rapper e em seus erros, mas deixar de fora um texto rico e abrangente.

O nono eliminado o Big Brother Brasil 21 foi Rodolffo com 50,48% dos votos, 48,69% menos que Karol Conká. Durante sua estadia na casa, o cantor sertanejo disse falas homofóbicas, racistas e machistas, mas ao sair do jogo encontrou sua música “Batom de Cereja” no topo das paradas, um aumento de 4 milhões de seguidores no Instagram e diversas pretendentes à namorada. Rodolffo, em 2018 declarou abertamente seu apoio ao, então candidato à presidência, Jair Bolsonaro, mas foi Conká que a internet atrelou ao presidente neo-facista e intolerante. A pergunta que resta é: o que difere Conká e Rodolffo?

O cancelamento de pessoas negras acontece de forma mais agressiva do que com pessoas brancas. Artistas pretos com contribuições imensas à cultura são alienados de forma radical, taxados como loucos e sofrem boicotes irreparáveis. Quando se trata de mulheres e pessoas queers não-brancas, a renúncia é ainda maior. Nomes como Azealia Banks e Rico Dalasam lidam até hoje com um forte repúdio do público.

Se pensa como reparação histórica, a inserção de pretos na academia e no mundo corporativo. Mas vai além disso. Como pessoas brancas, amparados pelo sistema, é preciso entender o trauma que o racismo pode causar em pessoas negras. Trauma quando não tratado se torna mecanismo de defesa, e às vezes defesa é ataque. Karol Conká, vítima de racismo desde a infância e que como qualquer outra mulher, vivenciou situações abusivas em relacionamentos, desenvolveu sua persona baseada no combate, no poder e na tombação. Essas características, como a própria diz, fez com que sua na animosidade ganhasse destaque e… bom você conhece o resto desta história.

O documentário deveria tirar a Karol Conká do centro da narrativa. Ela não é caso isolado, não foi a primeira e não será a última. A cultura de cancelamento é nociva para todos, porém ainda mais perigosa para certos grupos de pessoas. De nada adianta limpar a imagem da Conká, se a sociedade está a postos para mais um julgamento de ostracismo. A necessidade de expor as consequências desiquilibradas do cancelamento para pessoas pertencentes a qualquer comunidade de minoria representativa é urgente. Afinal, todo mundo tem direito de errar.

Escrito por Guilherme Fagundes